sábado, 23 de fevereiro de 2013


CARTA DE WILSON FIGUEIREDO PARA O BISNETO MIGUEL


Recebi a autorização de meu cunhado Wilson Figueiredo para postar no meu blog esta carta dirigida a seu bisneto, que poderá servir para todas as crianças que estão chegando a este planeta.

“Palavras ao futuro

Querido bisneto Miguel:

Convidado a saudá-lo, quando mal acaba de chegar ao convívio daqueles que irá conhecendo à medida que se intrometerem na sua vida, não encontro pretexto para me esquivar a uma responsabilidade para a qual não estou preparado. Não tenha pressa em ser adulto. Os bisnetos que chegaram antes não sofreram o castigo que lhe reservaram nesta oportunidade. Discursos não ajudam a digestão.

Eu me sinto muito honrado, mas serei rápido para não indispô-lo com a parentela que não tira os olhos da farta mesa de doces. Serei pouco conciso, mas aproveitarei para não perder a oportunidade de dizer o que posso repassar a quem acaba de chegar ao clube da família. 

A oportunidade é esta, e não se repetirá. Também não quero acordá-lo, se já tiver adormecido, ou adormecê-lo com conversa fiada, se ainda estiver acordado. Porque, nesta idade, dormir e acordar são os recursos para continuar a vida.

Meu caro Miguel: um dia, em que espero estar vivo quando ocorrer, conversaremos,  de homem para homem e, muito antes que tal ocorra, também conversaremos como bisavô e neto. Cada um na sua. Não faltarão trivialidades para abordarmos. Não espere de mim bons conselhos, mas também não mais do que minha conivência com suas peraltices.

 Farei o que estiver ao meu alcance para garantir a liberdade de ser como entender. Que é a primeira liberdade do homem quando ainda criança.
 
Até lá, meu caro, darei o melhor que estiver ao meu alcance para fazer de você um homem independente, no bom sentido. Ou seja, que não leva desaforo para casa.

Isto é, seja – quando chegar a hora, e não antes - um homem capaz de pensar e emitir opiniões, divergir sem ofender o interlocutor, escutar com paciência, votar sem se iludir, divergir sem agredir,  e jamais se candidatar a cargos eletivos. E nunca acreditar que possa haver melhores condições do que as providenciadas pela democracia.

Goste de gente e de bichos, sem excluir os do mato, mas, nesse caso, sem tê-los em casa. E saiba as diferenças entre uns e outros. Quais sejam, homens e animais.

De minha parte, exceto modesta rebeldia, pouco tenho a oferecer como exemplo, mas prometo fazer o possível para que você mantenha a cabeça erguida e leve adiante a ascendência pelo meu lado inconformado. Que, na parte relativa aos Figueiredo, não registra casos graves de desobediência civil  (ou, para ser completo, militar também).

Falo como bisavô, mas fui bisneto, embora apenas em tese, pois nem conheci meus avós, de um lado e de outro. Quanto mais bisavós. Um luxo naquele tempo em que os avós partiam antes de chegarmos. Ou logo depois. Bisavós eram entes sobrenaturais.

Meu único bom propósito, que não terá efeito direto sobre você, é minha intenção de fazer o possível para você não ter pressa em crescer, nem ser moderado em obedecer: ao pai e à mãe, dê a sua contribuição ao equilíbrio entre eles e nas relações familiares. E sorria sempre.

Mas, esteja certo de  que de crianças não se pode exigir, nem mesmo esperar, que se comportem como adultos, antes da hora em que a infância deixa de ser soberana.

Não tentarei estragar suas notas de comportamento em família, mas – enquanto eu viver – pode contar comigo, seja para obedecer ou para desobedecer, que também é um direito da criança.

No mais, boa sorte e até a próxima.

Bisavô Wilson
Acácias 193 – Gávea-RJ”
    




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013


MEU ENCONTRO COM AS BORDADEIRAS MATIZES DUMONT


A folia de reis em Brasília, além de ser uma celebração, foi também uma confraternização. Naquela noite fizemos amigos novos e as bordadeiras do grupo Matizes Dumont nos foram apresentadas.
No dia seguinte já estávamos em casa de Sávia conversando sobre o trabalho de bordado extensivo à toda família. Conhecemos D. Antônia, a mãe e líder do bordado. Com filhos, netos e bisnetos, D. Antônia ainda borda e incentiva a participação da família num trabalho de arte coletiva que serve de exemplo para outras famílias. O bordado sobre telas de artistas famosos é uma recriação livre sobre um tema que serve de base. As bordadeiras percorreram os caminhos do Rio São Francisco, registrando os barcos, os animais, as festas e percorreram também a trajetória de Portinari em Guerra e Paz, traduzindo para o bordado a obra prima do grande artista brasileiro.  Cores, tons, semitons, os amarelos trazendo a alegria das crianças brincando de roda, os tons de azul escuro simbolizando as sombras da guerra e a tragédia da morte coletiva pairando sobre a terra. Tudo isso foi traduzido e interpretado em linhas coloridas e lãs multicores das bordadeiras Matizes Dumont. Relembro minha prima Maria Ângela Magalhães com sua turma de bordadeiras tecendo as minhas tapeçarias entituladas “Barqueiros do São Francisco”.
Agora, estou eu sentada num ateliê de arte que agrega uma família inteira, filhas, netas, todas tecendo e bordando cenas do cotidiano e também traduzindo a inspiração de grandes artistas como Portinari. As bordadeiras são bem sucedidas em seu trabalho de arte coletiva, realizado por muitas mãos. Um dos irmãos, o pintor Demóstenes, reside em Tiradentes. Ele realiza seus estudos e telas para se transformarem em bordados. Esse grupo de artistas, de uma originalidade extraordinária, já se firmou como um grupo conhecido no Brasil Central e também no Rio e São Paulo, o famoso eixo inquebrantável.
Aqui estou, no Brasil Central, descobrindo novos caminhos para minha arte.
Conheci Sávia, que é também escritora, escreve livros para crianças que já mereceram o prêmio Jaboti, um dos prêmios mais importantes do Brasil. Os livros são ilustrados com fotos dos quadros bordados e a história de Candinho o “Portinari” vai seguindo pelo Brasil através do mundo das crianças. Pediram-me para dar entrevista sobre a minha trajetória na arte e na vida e um dia terei também um livro bordado.
Graças a essa família privilegiada muita coisa nova está sendo feita em matéria de quadros e livros e até de capa de CD, como o bordado que foi  feito para ilustrar um CD de Maria Betânia.
Bem, aqui estamos em Belo Horizonte de novo, depois de ter escrito esse blog durante a viagem. Marília foi buscar as malas e eu aqui estou, no Aeroporto de Confins, escrevendo, sentada numa cadeira de rodas.
Chegamos. O tempo aqui está ótimo, há crianças brincando e correndo enquanto as mães tiram as malas. Tudo vai começar de novo nessa movimentada cidade das montanhas. A paisagem é outra, deixamos para trás o cerrado e os amigos que lá ficaram já nos dão saudades. Talvez um dia possamos caminhar juntos, nas estradas mágicas dos bordados.

*Fotos de Arnold Baungartner, Rui Faquini e Maurício Andrés

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