Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 18 de março de 2013
sábado, 23 de fevereiro de 2013
CARTA DE WILSON FIGUEIREDO PARA O BISNETO MIGUEL
Recebi a autorização
de meu cunhado Wilson Figueiredo para postar no meu blog esta carta dirigida a
seu bisneto, que poderá servir para todas as crianças que estão chegando a este
planeta.
“Palavras ao futuro
Querido bisneto
Miguel:
Convidado a saudá-lo,
quando mal acaba de chegar ao convívio daqueles que irá conhecendo à medida que
se intrometerem na sua vida, não encontro pretexto para me esquivar a uma
responsabilidade para a qual não estou preparado. Não tenha pressa em ser
adulto. Os bisnetos que chegaram antes não sofreram o castigo que lhe
reservaram nesta oportunidade. Discursos não ajudam a digestão.
Eu me sinto muito
honrado, mas serei rápido para não indispô-lo com a parentela que não tira os
olhos da farta mesa de doces. Serei pouco conciso, mas aproveitarei para não
perder a oportunidade de dizer o que posso repassar a quem acaba de chegar ao
clube da família.
A oportunidade é
esta, e não se repetirá. Também não quero acordá-lo, se já tiver adormecido, ou
adormecê-lo com conversa fiada, se ainda estiver acordado. Porque, nesta idade,
dormir e acordar são os recursos para continuar a vida.
Meu caro Miguel: um
dia, em que espero estar vivo quando ocorrer, conversaremos, de homem
para homem e, muito antes que tal ocorra, também conversaremos como bisavô e
neto. Cada um na sua. Não faltarão trivialidades para abordarmos. Não espere de
mim bons conselhos, mas também não mais do que minha conivência com suas
peraltices.
Farei o que estiver ao meu alcance para
garantir a liberdade de ser como entender. Que é a primeira liberdade do homem
quando ainda criança.
Até lá, meu caro,
darei o melhor que estiver ao meu alcance para fazer de você um homem
independente, no bom sentido. Ou seja, que não leva desaforo para casa.
Isto é, seja –
quando chegar a hora, e não antes - um homem capaz de pensar e emitir opiniões,
divergir sem ofender o interlocutor, escutar com paciência, votar sem se
iludir, divergir sem agredir, e jamais se candidatar a cargos eletivos. E
nunca acreditar que possa haver melhores condições do que as providenciadas
pela democracia.
Goste de gente e de
bichos, sem excluir os do mato, mas, nesse caso, sem tê-los em casa. E saiba as
diferenças entre uns e outros. Quais sejam, homens e animais.
De minha parte,
exceto modesta rebeldia, pouco tenho a oferecer como exemplo, mas prometo fazer
o possível para que você mantenha a cabeça erguida e leve adiante a ascendência
pelo meu lado inconformado. Que, na parte relativa aos Figueiredo, não registra
casos graves de desobediência civil (ou, para ser completo, militar
também).
Falo como bisavô,
mas fui bisneto, embora apenas em tese, pois nem conheci meus avós, de um lado
e de outro. Quanto mais bisavós. Um luxo naquele tempo em que os avós partiam
antes de chegarmos. Ou logo depois. Bisavós eram entes sobrenaturais.
Meu único bom
propósito, que não terá efeito direto sobre você, é minha intenção de fazer o
possível para você não ter pressa em crescer, nem ser moderado em obedecer: ao
pai e à mãe, dê a sua contribuição ao equilíbrio entre eles e nas relações
familiares. E sorria sempre.
Mas, esteja certo
de que de crianças não se pode exigir,
nem mesmo esperar, que se comportem como adultos, antes da hora em que a
infância deixa de ser soberana.
Não tentarei
estragar suas notas de comportamento em família, mas – enquanto eu viver – pode
contar comigo, seja para obedecer ou para desobedecer, que também é um direito
da criança.
No mais, boa sorte e
até a próxima.
Bisavô Wilson
Acácias 193 – Gávea-RJ”
Acácias 193 – Gávea-RJ”
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
MEU ENCONTRO COM AS BORDADEIRAS MATIZES DUMONT
A folia de reis em
Brasília, além de ser uma celebração, foi também uma confraternização. Naquela
noite fizemos amigos novos e as bordadeiras do grupo Matizes Dumont nos foram
apresentadas.
No dia seguinte já
estávamos em casa de Sávia conversando sobre o trabalho de bordado extensivo à
toda família. Conhecemos D. Antônia, a mãe e líder do bordado. Com filhos,
netos e bisnetos, D. Antônia ainda borda e incentiva a participação da família
num trabalho de arte coletiva que serve de exemplo para outras famílias. O
bordado sobre telas de artistas famosos é uma recriação livre sobre um tema que
serve de base. As bordadeiras percorreram os caminhos do Rio São Francisco,
registrando os barcos, os animais, as festas e percorreram também a trajetória
de Portinari em Guerra e Paz, traduzindo para o bordado a obra prima do grande
artista brasileiro. Cores, tons,
semitons, os amarelos trazendo a alegria das crianças brincando de roda, os
tons de azul escuro simbolizando as sombras da guerra e a tragédia da morte
coletiva pairando sobre a terra. Tudo isso foi traduzido e interpretado em
linhas coloridas e lãs multicores das bordadeiras Matizes Dumont. Relembro
minha prima Maria Ângela Magalhães com sua turma de bordadeiras tecendo as
minhas tapeçarias entituladas “Barqueiros do São Francisco”.
Agora, estou eu sentada
num ateliê de arte que agrega uma família inteira, filhas, netas, todas tecendo
e bordando cenas do cotidiano e também traduzindo a inspiração de grandes
artistas como Portinari. As bordadeiras são bem sucedidas em seu trabalho de
arte coletiva, realizado por muitas mãos. Um dos irmãos, o pintor Demóstenes,
reside em Tiradentes. Ele realiza seus estudos e telas para se transformarem em
bordados. Esse grupo de artistas, de uma originalidade extraordinária, já se
firmou como um grupo conhecido no Brasil Central e também no Rio e São Paulo, o
famoso eixo inquebrantável.
Aqui estou, no Brasil
Central, descobrindo novos caminhos para minha arte.
Conheci Sávia, que é
também escritora, escreve livros para crianças que já mereceram o prêmio
Jaboti, um dos prêmios mais importantes do Brasil. Os livros são ilustrados com
fotos dos quadros bordados e a história de Candinho o “Portinari” vai seguindo
pelo Brasil através do mundo das crianças. Pediram-me para dar entrevista sobre
a minha trajetória na arte e na vida e um dia terei também um livro bordado.
Graças a essa família
privilegiada muita coisa nova está sendo feita em matéria de quadros e livros e
até de capa de CD, como o bordado que foi
feito para ilustrar um CD de Maria Betânia.
Bem, aqui estamos em
Belo Horizonte de novo, depois de ter escrito esse blog durante a viagem.
Marília foi buscar as malas e eu aqui estou, no Aeroporto de Confins,
escrevendo, sentada numa cadeira de rodas.
Chegamos. O tempo aqui
está ótimo, há crianças brincando e correndo enquanto as mães tiram as malas.
Tudo vai começar de novo nessa movimentada cidade das montanhas. A paisagem é
outra, deixamos para trás o cerrado e os amigos que lá ficaram já nos dão
saudades. Talvez um dia possamos caminhar juntos, nas estradas mágicas dos
bordados.
*Fotos de Arnold Baungartner, Rui Faquini e Maurício Andrés
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG "MINHA VIDA DE ARTISTA", CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
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