Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
sábado, 4 de maio de 2013
REFLEXÕES SOBRE EXPOSIÇÃO NA CASA DAROS
Um casarão em Botafogo, antiga escola de
adolescentes, foi transformado no espaço cultural “Casa Daros”, recentemente
inaugurado. Visitamos uma exposição de arte contemporânea que reúne artistas da
atualidade, cada um trazendo a sua contribuição para revelar a liberdade
criativa do momento em que vivemos.
Fotografamos a sala de Yole de Freitas que sustenta
uma beleza de composição e colorido nas velas transparentes de um grande barco.
Numa sala especialmente dedicada ao Conjunto da
Maré, jovens artistas da fotografia oferecem um exemplo de como fotografar
dentro de uma latinha de leite em pó. As fotos saíram muito nítidas, todas em
preto e branco, e podem ser admiradas em pequenos quadrinhos.
Na sala em frente, uma santa toda feita de sucata,
chama a atenção do público. Ficou linda, é reverenciada por todos que aqui vêm
para apreciar esta obra de Vick Muniz. Sempre admirei a criatividade de Vick
Muniz, voltada para os problemas de nossa época. Reaproveitando a sucata que se
empilhou na reforma de uma construção, Vick criou uma Nossa Senhora das Graças,
numa reprodução feita coletivamente por aqueles que trabalharam na obra. O
resultado foi surpreendente, e ela está exposta à visitação pública nesta
pequena sala da Casa Daros. Os visitantes aqui se detêm para reverenciá-la.
Nossa Senhora das Graças, aqui revestida com manto da pobreza, do despojamento,
parece nos olhar de frente, enquanto a contemplamos. Aos poucos, vou revivendo
um trabalho realizado por mim, com a ajuda da nossa saudosa Ana Horta há 35
anos atrás, no vale do Jequitinhonha. Releio o que escrevi na época e aqui
transcrevo o texto:
Em 1978 segui com uma caravana de artistas para o
Vale do Jequitinhonha, num projeto do artista Paulo Laender. Ali, cada um teria
de se expressar dentro de sua área: música, poesia, pintura, desenho, teatro,
literatura e educação. Naquela ocasião, procurei a jovem artista Ana Horta e
juntas organizamos jogos criativos com crianças da cidade. Eram meninos pobres
da redondeza, submetidos muitas vezes a privações e catástrofes. Incentivamos
as crianças a realizarem trabalhos individuais, usando materiais da região e elas
se manifestaram com a maior espontaneidade: criaram uma imensa boneca, a qual
denominaram Mariquinha. Usaram para aquela criação coletiva gravetos, flores,
folhas e pedras da região. Mariquinha, medindo uns 5 metros de comprimento,
estava deitada no chão, com uma vassoura de folhas de palmeiras na mão. As
crianças fizeram uma roda e cantaram em torno, embalando a grande boneca com
canções de ninar.
E se as chuvas vierem? Perguntei.
“Fazemos outra Mariquinha”, responderam.
Trabalhos coletivos ajudam na harmonização do grupo
e no desapego da obra. Para aquelas crianças que assistiram suas casas
desabarem com as inundações, o momento presente era o que importava.
*Fotos de Marília Andrés e Alice Andrés.
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
ARTE E EDUCAÇÃO NA MINHA VIDA II
Em 1944 Guignard chegou a Belo Horizonte convidado
pelo prefeito Juscelino Kubitschek para dirigir a Escola de Belas Artes. Senti
o impacto de sua presença como uma renovação no panorama artístico de Minas e
uma ruptura com o academismo. Procurei me inscrever em seu curso. Foi
necessário um descondicionamento dos conceitos e fórmulas herdadas do
academismo, para que eu pudesse ter acesso a minha própria individualidade. Meu
objetivo era libertar-me do passado acadêmico e encontrar a linguagem adequada
ao meu tempo. Guignard estimulava a coisa nova e a partir desse incentivo descobríamos nosso estilo
individual. A convivência com os colegas e a poesia do Parque Municipal me
estimulavam a criação e me despertavam novas indagações sobre a arte.
Atualizava-me também lendo os filósofos e místicos
que estudavam a arte como abertura de consciência: Rainer Maria Rilke, Jacques
Maritain, Kandinsky. Gostava de escrever textos que mais tarde se tornaram
livros. Esses textos revelavam também a necessidade de escrever que sempre
acompanhou paralelamente à minha necessidade de desenhar e pintar.
Participei do movimento concretista integrando o
grupo de Minas Gerais ligado à Escola Guignard: Mário Silésio, Marília
Giannetti Torres, Nelly Frade, Mary Vieira, Amilcar de Castro e Franz
Weissmann. Naquela ocasião, as formas do mundo exterior deixaram de servir de
ponto de referência obrigatório. Os artistas buscavam a simplificação da forma
para que a linha e a cor pudessem falar por si e expressar seu equilíbrio
próprio independente da figura. O concretismo possibilitou um encontro da arte
com a ciência, a matemática e a física. Integrou-se à poesia e à música. A
poesia concreta revelou a possibilidade da palavra no campo visual e na pintura
as cores eram distribuídas em pequenos quadrados coloridos sobre fundo chapado,
sugerindo partituras musicais. Nunca a pintura se aproximou tanto da música
como naquela período da história das artes plásticas.
Na década de 50, eu participava de salões e Bienais
e isto me permitia estar atualizada com a vanguarda da época. Viajava para São
Paulo para conhecer o que se fazia no mundo artístico, e ali encontrava
jornalistas, críticos de arte e artistas. O crítico de arte Mário Pedrosa vinha
me visitar em Belo Horizonte e um dia me telefonou dizendo que eu era a melhor
candidata ao Prêmio de Viagem à Europa pelo Salão Nacional de Belas Artes. Não
hesitei em adverti-lo: Não posso me afastar do Brasil por dois anos. Razões de
família me impedem. O importante para mim era continuar minha vida de artista,
junto aos meus filhos em Belo Horizonte.
Meu atelier situava-se num quintal muito grande onde
as crianças brincavam. Gostava de senti-los perto de mim, criando seu universo
lúdico através de desenhos. Meu marido trazia papéis e eu acrescentava lápis de
cores e pastéis coloridos. Com este material as crianças se expressavam
livremente. Meus filhos pintavam nos muros imensos painéis com tintas
preparadas em casa. Esse constante estímulo à criatividade, de certo modo,
constituiu a base necessária para que eles se expressassem na vida como seres
humanos criativos.
*Fotos de Ivana Andrés e da internet
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