Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O GRIVO, ARTEFATOS DE SOM
Chegamos a uma sala enorme, circular, com vários
cilindros de água, em tamanhos variados, cada um emitindo um som diferente. Ali
as águas choravam e gemiam, motivadas pela escassez de água que já ameaça
afligir o planeta. Escassez e enchentes, a água está rolando, provocando
tragédias. Ninguém percebe que a água é
viva e é dela que depende nossa vida no planeta. A água tem sido a grande
preocupação dos ecologistas, e naquela exposição, ela emitia seus sons, criando
música. Fiquei muito tempo ouvindo a música das águas, com os fones de ouvido.
As pessoas passavam, olhavam , iam embora, mas eu me sentia bem com aquela
música da natureza, vinda de dentro de cilindros de vidro, onde uma gota d’água
ia pingando e mudando as notas. Não sei quanto tempo ali fiquei sentada,
ouvindo aquela música vinda do gemido das águas, só sei que entrei ali muito
cansada e sai relaxada.
O grupo “Grivo” é criativo, sempre inventando uma
coisa diferente. A Arte Contemporânea permite esta diversidade e a exposição
deste grupo de Minas é um exemplo.
Fui ver as outras salas, onde um violão tocava
música sozinho e também aquela engrenagem de muitas rodinhas, todas vibrando
como o presépio de Pipiripau. Fui
conduzida às memórias de infância, aos brinquedos de criança que papai nos
trazia do Rio de Janeiro com rodinhas se movimentando. Agora, na mesma avenida
Afonso Pena, onde morávamos na infância, volto para apreciar na Oi Futuro as
invenções deste grupo de artistas. Relembro Paulo, meu irmão e suas criações
neste campo do lúdico. Acho que a minha admiração pela arte e tecnologia vem
dos meus tempos de criança e de minha admiração pelas invenções de meu irmão.
Arte e tecnologia, arte e ciência, estão sendo estimuladas agora na Arte
Contemporânea. Revivendo o passado, sentindo o presente e sonhando com o
futuro, é o que estou podendo fazer neste momento.
*Fotos de Elena Andrés Valle
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG, “MINHA VIDA DE
ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
sábado, 4 de maio de 2013
REFLEXÕES SOBRE EXPOSIÇÃO NA CASA DAROS
Um casarão em Botafogo, antiga escola de
adolescentes, foi transformado no espaço cultural “Casa Daros”, recentemente
inaugurado. Visitamos uma exposição de arte contemporânea que reúne artistas da
atualidade, cada um trazendo a sua contribuição para revelar a liberdade
criativa do momento em que vivemos.
Fotografamos a sala de Yole de Freitas que sustenta
uma beleza de composição e colorido nas velas transparentes de um grande barco.
Numa sala especialmente dedicada ao Conjunto da
Maré, jovens artistas da fotografia oferecem um exemplo de como fotografar
dentro de uma latinha de leite em pó. As fotos saíram muito nítidas, todas em
preto e branco, e podem ser admiradas em pequenos quadrinhos.
Na sala em frente, uma santa toda feita de sucata,
chama a atenção do público. Ficou linda, é reverenciada por todos que aqui vêm
para apreciar esta obra de Vick Muniz. Sempre admirei a criatividade de Vick
Muniz, voltada para os problemas de nossa época. Reaproveitando a sucata que se
empilhou na reforma de uma construção, Vick criou uma Nossa Senhora das Graças,
numa reprodução feita coletivamente por aqueles que trabalharam na obra. O
resultado foi surpreendente, e ela está exposta à visitação pública nesta
pequena sala da Casa Daros. Os visitantes aqui se detêm para reverenciá-la.
Nossa Senhora das Graças, aqui revestida com manto da pobreza, do despojamento,
parece nos olhar de frente, enquanto a contemplamos. Aos poucos, vou revivendo
um trabalho realizado por mim, com a ajuda da nossa saudosa Ana Horta há 35
anos atrás, no vale do Jequitinhonha. Releio o que escrevi na época e aqui
transcrevo o texto:
Em 1978 segui com uma caravana de artistas para o
Vale do Jequitinhonha, num projeto do artista Paulo Laender. Ali, cada um teria
de se expressar dentro de sua área: música, poesia, pintura, desenho, teatro,
literatura e educação. Naquela ocasião, procurei a jovem artista Ana Horta e
juntas organizamos jogos criativos com crianças da cidade. Eram meninos pobres
da redondeza, submetidos muitas vezes a privações e catástrofes. Incentivamos
as crianças a realizarem trabalhos individuais, usando materiais da região e elas
se manifestaram com a maior espontaneidade: criaram uma imensa boneca, a qual
denominaram Mariquinha. Usaram para aquela criação coletiva gravetos, flores,
folhas e pedras da região. Mariquinha, medindo uns 5 metros de comprimento,
estava deitada no chão, com uma vassoura de folhas de palmeiras na mão. As
crianças fizeram uma roda e cantaram em torno, embalando a grande boneca com
canções de ninar.
E se as chuvas vierem? Perguntei.
“Fazemos outra Mariquinha”, responderam.
Trabalhos coletivos ajudam na harmonização do grupo
e no desapego da obra. Para aquelas crianças que assistiram suas casas
desabarem com as inundações, o momento presente era o que importava.
*Fotos de Marília Andrés e Alice Andrés.
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