segunda-feira, 5 de outubro de 2015

PROBLEMAS DE VIAGEM II

Numa de minhas viagens, desta vez com Beth Cavalcanti, fomos detidas em Bombaim por seis dias. Beth não havia tomado a vacina contra febre amarela, e a Índia não permite a entrada de pessoas ligadas aos países que oferecem possibilidades à doença. Um mapa na parede do aeroporto e o Brasil coberto com uma faixa amarela. Os guardas verificaram o passaporte. Se o passageiro não fosse vacinado, teria de ficar de quarentena num hospital de isolamento.
 Beth me olhou horrorizada e eu não tive dúvidas, ficaria com ela no hospital. A passagem por aquele hospital, onde uma liga das nações do terceiro mundo se misturava no mesmo infortúnio, foi decisiva para um aprendizado de vida. Diante do irremediável, o melhor caminho é a aceitação. Se cairmos em depressão as coisas pioram. No fim da temporada, estávamos amigas de todos os reclusos, dando aulas de criatividade para o grupo. Até os guardas participaram das aulas, imitando bichos, elefantes, macacos, cachorros. Aulas de criatividade ajudam a mudar situações e são necessárias quando a vida nos coloca confinadas num ambiente estranho, sem possibilidade de saída.

Em outra de minhas viagens, fomos parar num hotel humilde em Madras.
O cansaço da viagem, a entrada naquele hotel nos fez enxergar fantasmas à noite. As janelas davam para um pátio escuro e, devido ao fato de estarmos no segundo andar, a possibilidade de um assalto era uma temeridade. As sombras projetavam vultos na parede em frente e, quando nos recolhemos para dormir, a cama trepidava e fazia barulho.

“Minha filha, minha cama está mexendo. Estou quieta, sem fazer nada e a cama não para de mexer.”
Comecei a ficar aflita. A cama da minha filha também mexia. Dei um pulo no escuro e fui acender a luz.
“Não fico mais neste quarto, deve ser alguma entidade do astral!”

O medo criava possíveis demônios nos perseguindo. Cantamos mantras, rezamos.
Depois, observando com atenção, percebemos que as duas camas eram ligadas por duas pranchas de madeira. Quando uma de nós virava de lado, a cama ao lado balançava e fazia ruído, como se fosse uma caixa de ressonância.
A experiência foi boa para se constatar o fato de que nossa mente é a maior responsável por todos os nossos momentos de terror. A mente cria fantasias e nos arrasta para os mais desencontrados espaços da imaginação...

*Fotos da internet


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quarta-feira, 23 de setembro de 2015


PROBLEMAS DE VIAGENS I

Viajar pela Índia não é fácil. As coisas aqui só acontecem a partir do inesperado, e, para as cabeças acostumadas a planejar roteiros fixos, isso constitui o primeiro choque. Chegamos ao aeroporto com as passagens marcadas, tudo ok.

- “Madam, este voo acabou, não tem mais.”
- “Mas reservamos ontem pela Indian Airlines.”
-“Sim, ontem foi janeiro, a partir de fevereiro cortamos este voo.”

Este simples corte de voo significaria uma permanência no aeroporto, o dia inteiro, para seguir à noite. Se não fosse Dominique, nosso anjo protetor que nos acolheu em sua casa, estaríamos perdidas. Viemos à noite sem hotel marcado, Madras superlotada por causa de uma feira de artefatos de couro. Aqui existe uma feira atrás da outra. Da última vez corremos uma feira de livros que no dia seguinte pegou fogo. Agora esta feira superlota a cidade. Esvaziei minha mente para saber o que deveria fazer e confiei no destino. Alguma coisa aconteceria, tinha certeza. No aeroporto dois agentes de viagem disputavam passageiros. Um deles oferecia 70 dólares por uma noite num hotel de 5 estrelas, perto do aeroporto. Já estava disposta a pagar, quando um outro ofereceu uma chance mais modesta. Hotel de 2 estrelas, num bairro pobre, limpo, ventilador em cima das nossas cabeças: “Mars Hotel”. Foi a salvação, e aqui estamos, dispostas a alugar um taxi no dia seguinte e procurar outro espaço, talvez o Krishnamurti Foundation, quem sabe?

Agora, enquanto escuto os mantras, vou recordando outros desencontros de viagem. Aquela chegada em Delhi com uma jovem francesa, vinda do
Nepal. A menina precisava de ir à embaixada francesa e à companhia aérea russa, não falava inglês, dispus-me a ajudá-la. Eu também teria de renovar meu visa. Chegamos a Delhi, 48 graus, calor insuportável, a cabeça fervia, a água das torneiras saía fervendo, a eletricidade  acabou e o hotel não tinha gerador próprio. Reclamei na recepção.

- “Não consigo aguentar este calor, acho que vou morrer.”

No verão, a capital indiana é um caldeirão de calor, por isso é aconselhável viajar no inverno.

-“ Por favor, arranje-nos algum lugar menos quente para dormir.”

No pátio central, os indianos colocavam suas camas do lado de fora, mas o dono do hotel levou-nos até a “boite”, onde o ar refrigerado ainda conservava baixa temperatura. Tivemos de dormir no chão, frente a um imenso painel fosforescente representando um dragão chinês. Chegamos tateando no escuro, velas acesas. O importante nestas viagens é não esquentar a cabeça.

Nessa mesma viagem o avião não conseguiu decolar devido ao calor. Ficamos parados em Agra, a aeromoça gentilmente distribuindo balas e um lencinho úmido para limpar o rosto e o pescoço. Ao meu lado um indiano reclamava: “Não estou acostumado a este calor, trabalho com ar condicionado!” Aquela reclamação só servia para aumentar o calor. Resolvi dar uma de conselheira: “Também eu não estou acostumada, moro nas montanhas, gosto do frio. Mas por quê o senhor não muda este pensamento negativo? Na minha terra, tem pessoas que pagam caro para entrar numa sauna, imagine-se numa sauna por livre e espontânea vontade e as coisas mudarão. O simples fato de ser por livre e espontânea vontade é decisivo para mudar situações.” O indiano parou de reclamar, aceitou o inesperado e a sua vibração mudou.(Diário de viagem, 1993)

*Fotos de Maurício Andrés

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015


RAMAN RESEARCH INSTITUTE - ENCONTRO COM A CIÊNCIA

 No meio da confusão da Índia, o Raman Research Institute é um espaço de paz. Há arvores abrigando bangalôs onde os jovens cientistas se recolhem por algum tempo buscando um aprofundamento de seus estudos. Há grandes pavilhões, entre eles o museu Raman relatando em fotos a vida de seu fundador; há o museu de pedras preciosas e uma enorme biblioteca. O professor Raman foi um famoso cientista indiano que, por meio de usa inteligência, dedicação e incessante interesse em pesquisa, trouxe para a Índia um prêmio Nobel em física. O Efeito Raman é conhecido no mundo inteiro. Podemos estudar sua vida através de livros, pôsteres e informações fotográficas colocadas nas paredes do museu. Visitei o museu e recebi informações do grande mestre que foi o professor Raman. Há pesquisas maravilhosas no campo das vibrações.Ele era muito interessado em música e também em cores. A partir de suas descobertas nesses dois campos podemos refletir sobre a relação entre cores e sons.
Como artista, que sempre gostou de pintar ouvindo música, fiquei fascinada com essas experiências relatadas por um grande físico.

O Professor Raman era também interessado em pedras. Ali há salas reservadas a pedras semi preciosas, guardadas cuidadosamente dentro de vitrines. O Professor Raman foi sucedido por seu filho Radhakrishnan, também dedicado aos estudos científicos. O Professor Radhakrishnan continuou a obra de seu pai, numa outra dimensão.

Raman pesquisou a terra, Radhakrishnan pesquisa as estrelas. Há alguns anos, durante uma conjunção planetária, eu estava na Índia, hospedada no Raman Institute e tive a oportunidade de observar num grande telescópio o brilho de milhões de estrelas. O Dr.Radhakrishnan e sua esposa Dominique são grandes amigos que tive a sorte de conhecer na Índia e que me ofereceram hospitalidade e carinho nas minhas longas viagens. Ambos são interessados em arte e dão estímulo a vários artistas não somente vindos da Índia como de vários países do mundo.

O Instituto é um recanto aprazível, cercado de jardins floridos e arvores frondosas, lugar ideal para reflexão. Interessei-me sobretudo num livro de sua biblioteca: Poussières d’étoiles de Hubert Reeves e transcrevo um texto que me permitiu viajar no espaço: “Quando as estrelas morrem, espalham sua matéria no espaço. Esses filamentos coloridos espalhados sobre milhares de quilômetros são as poeiras de um astro que agoniza.  Nesses pedaços de matéria, os átomos se encontram e formam moléculas e grãos de poeira. Dessa poeira nascerão mais tarde os planetas e de suas moléculas talvez as plantas e os animais. É no céu estrelado que poderemos encontrar as origens da vida.”

O livro Poussiéres d’étoiles nos faz refletir sobre unidade do universo a partir da morte das estrelas e a sua transformação em novos planetas. É uma viagem fantástica às origens da vida e um retorno à essência de onde viemos. No silêncio do Instituto Raman refletimos sobre a nossa unidade com o infinito espaço cósmico do universo.

*Fotos da internet


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