Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
segunda-feira, 18 de abril de 2016
VIAGEM AOS EUA IX - São Francisco e o Oriente
Transcrevo abaixo trecho do meu diário de viagem aos
EUA em 1961:
Hoje
os brasileiros devem estar no auge do carnaval. Aqui nem se fala nisso, mas é
feriado nas escolas por ser aniversário de Lincoln.
Marcaram-me um encontro com Mrs. Swanson, para correr a cidade. Mrs. Swanson pertence à categoria das senhoras voluntárias que se oferecem para acompanhar convidados em "tours".Levou-me no seu carro. Acompanhou-nos um casal vindo da Argentina. Ao me ser apresentado
ele fez questão de mostrar um cartãozinho com o seu nome e as credenciais
"Deputado de la Nación”. Gente muito
importante, pensei. Percorremos a cidade. Fomos a todos
os recantos pitorescos, percorremos colinas, estacionamos em lugares altos para ver a vista. A paisagem é deslumbrante, lembra
muito o Rio
de Janeiro, tive saudades do Brasil quando vi os navios
chegando. Saudades da minha terra e das belezas que também
possuímos... Os navios não vêm da Europa, mas da Ásia. São
navios japoneses, filipinos, chineses, indianos. Vêm de longe, trazendo coisas diferentes que serão
misturadas à cultura ocidental para dessa mistura fazer uma só civilização. Mrs. Swanson
foi muito gentil. Mostrou-nos recantos maravilhosos, levou-nos a parques e
jardins e fez-nos descer no jardim japonês para poder apreciá-lo de perto. Tudo
ali é inspirado no Japão. As flores, os pequenos lagos, os quiosques e templos.
No meio da vegetação, imagens de Buda e outros
deuses, tudo disposto com carinho e arte. Havia muita gente visitando o parque,
por ser feriado.
São 9 horas da manhã e estou voltando
da igreja de St. Mary, situada em China Town. Estou em jejum e procuro um lugar
para tomar meu breakfast. Enquanto isso, vou olhando as vitrines. Paro em quase
todas. O oriente me fascina. Como tudo é estranho, misterioso, os menores
objetos têm um cunho de beleza e arte! Vou andando cada vez mais para dentro de
China Town. As lojas estão fechadas por ser domingo. Mas posso ver as coisas
através dos vidros. Penso nas meninas. Gostaria de tê-las agora comigo, para
juntas corrermos as vitrines. Tem tanta coisa para se ver! Meu sapato faz um
barulhinho esquisito na calçada, comprei-o há dias em San Francisco, parece que
tem o salto de metal. Quando entrei na igreja, precisei andar nas pontas dos pés
para não fazer barulho. Mas, aqui na rua chinesa, divirto-me em escutar o
barulhinho que eles fazem na pedra: toc, toc, toc.
Relendo
este texto, tomei consciência de que meu fascínio pelo Oriente foi estimulado
por essa viagem à Califórnia. Em São Francisco existia uma enseada chamada
Saucelito, onde morava Alan Watts, autor de vários livros espiritualistas e
muito conhecido no Brasil. Lembro-me de um dos seus livros “A sabedoria da
insegurança”, onde ele propõe uma simplicidade voluntária. Alan Watts morava
num barco em Saucelito e tornou-se “o guru dos hippies”. Vários mestres da
Índia criaram comunidades na Califórnia, entre eles Yogananda e Krishnamurti.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 11 de abril de 2016
VIAGEM AOS EUA VIII - SAN FRANCISCO, CALIFÓRNIA
Transcrevo abaixo trecho do meu diário de viagem aos EUA, em 1961:
Esperava-me no
aeroporto uma americana de 30 anos, muito gentil e despachada. Tomou-me metade
dos pacotes, saiu andando na frente até o seu carro estacionado no aeroporto,
resolveu tudo para mim. Enquanto rodávamos em direção ao hotel, ia apreciando a
paisagem noturna e recebendo o primeiro impacto com aquela maravilha de luzes
e curvas, que é a cidade de San Francisco.
Já havia apreciado por cartões e fotografias, mas não há como ver
com os próprios olhos. Não há como viver e poder sentir a cidade de perto. San
Francisco é chamada a Paris da América, recebe muito da cultura européia, misturada com o espírito oriental. As
lojas e vitrines são bem arranjadas, gosto francês nos manequins. Flores por
toda a cidade, colorido de matizes diversos, perfumes, alegria de primavera. Um
contraste completo, sem a tristeza do leste e suas terríveis tempestades de
neve. Este foi um domingo cheio de
surpresas. Havia um appointment marcado com o pintor Ralf Du Casse. Conheci
Ralf Du Casse quando esteve no Brasil em 1956. Esteve lá em casa, com Mário
Silésio, Lúcia e Antônio Joaquim de Almeida. Lembro-me bem dele. Mas já me
avisaram em Washington que ele mudou muito. Sofreu um acidente enquanto pintava
um mural. Teve fraturas nos dois braços, precisou fazer plástica no rosto.
Recebi um telefonema dele ontem, a voz muito alegre “Welcome to San Francisco,
Maria Helena! ” Queria saber se eu poderia mesmo ver seus quadros. O
appointment foi marcado ,acho melhor quando é assim, pois o horário é cumprido
religiosamente. Às duas horas, já estava ele no hall do hotel. Desconfiei que
só podia ser ele.
Estava esperando uma reação minha.
Tornou-se muito feliz quando disse tê-lo reconhecido. Levou-me até seu estúdio,
mostrou-me os quadros um por um. Vai fazer uma exposição em San Francisco agora
em março. Os quadros estão fresquinhos, o cheiro de tinta chega até o corredor.
São enormes, 2 metros de altura por 1 metro de largura. Formas abstratas em
fundo branco, um abstrato informal, mais lírico, mais limpo, mais cuidadoso.
Pinta as formas sobre a tela, sem um estudo prévio. Depois vai cuidando delas,
acrescentando detalhes à composição. Alguns são extremamente poéticos e têm uma
certa influência oriental. Chamei-lhe a atenção disto e ele me disse que de
fato esteve o ano passado no Japão. Mr.
Du Casse reage contra o expressionismo do leste. Contra Hoffmann e seus
filiados e também contra o concretismo matemático, cheio de medidas e regras.
Suas formas são leves, luminosas. São decididas, abraçam o espaço branco da
tela como mundos que se desvendam. Gostei muito. A turma de pintores do Pacífico
é extremamente diferente do expressionismo furioso dos pintores do Atlântico.
Engraçado, eu estou podendo fazer este julgamento. Mas a minha viagem me
proporciona também, além de tudo, o prazer de comparar. Estive em Washington e
N. York, agora em Seattle e S. Francisco. Parece que os daqui são mais
comedidos, refletem mais quando pintam.
Volto a olhar a paisagem. A
Califórnia deve ser o celeiro do país. São campos e campos cultivados; enquanto
neva no leste, o homem planta e colhe aqui. Faz gosto ver como tratam da terra.
Estamos agora em Watson View, célebre por suas plantações de morangos. Do outro
lado cultivam espinafres, peras, maçãs. Da janela, estou vendo o panorama.
Estamos perto de algum campo de aviação. Não vejo o aeroporto, vejo os jatos no
céu. Deixam um traço reto no espaço, como uma enorme cauda de fumaça. Um na
frente, deve ser dos Boeings 707, muito grande; outros menores, atrás. Um já
fez uma curva para descer. Quando se está lá dentro, não se percebe que vão tão
depressa.(Trecho de diário de viagem aos EUA, 1961)
*Fotos da internet
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