Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
segunda-feira, 2 de abril de 2018
O EREMITA DE RISHKESH
O carro parou na estrada e descemos
300 degraus de ma escada de pedra.
O rio Ganges corria sereno, entre
patamares planaltos e praias de areia branca.
Debaixo de arvores, no meio de
pedras, existe um ashram escondido.
Dois homens vêm nos receber. Estão
enrolados em panos acinzentados. Escolheram uma vida simples, inteiramente
ligada à natureza. Crianças se acercam de nós. Uma delas, me põe um pozinho de
sândalo na testa para clarear os pensamentos.
Ali viveu durante muitos anos Swami
Purushottamenendgi, o eremita de Rishkesh. Meditava dentro de uma gruta com uma lamparina de óleo
junto à imagem de Shiva. Quando queria comer ia à aldeia próxima e lhe davam
fogo para cozinhar. Não usava fósforo nem tirava o fogo das pedras, mas conservava
sempre acesa a sua lamparina. Ate hoje, podemos vê-la acesa, como o fogo
sagrado que nunca se apaga.
O velho eremita era uma espécie de S.
Francisco da Índia. Conversava como os tigres e as cobras, dava comida aos
peixes do rio. Sua vida estava ali, junto ao rio muito verde, escondido no meio
da floresta. As lendas a seu respeito corriam de boca em boca.
“Eu estava junto dele, quando se
aproximou uma cobra, tive medo mas o Swami ordenou que ela se retirasse. A
cobra que preparava o bote, afastou-se de nós tranqüilamente”, isto nos
informou o seu jovem discípulo.
Um dia, o velho Swami chamou os
discípulos para avisá-los de que sua hora chegara. Morreu sentado em postura de
lótus.
Hoje seu retrato é homenageado cm
colares de flores, junto à entrada da caverna.
Um menino de 8 nos me segura as mãos
e vou andando devagarinho, sem enxergar nada, só a lamparina brilhando no
escuro. Aos poucos, das sombras vão surgindo formas, silhuetas.
O menino tocou um sino e cantou
mantras. “Om nama shivaya”.
Os cânticos ressoaram dentro da
gruta, fazendo coro com a flauta de Patrícia, a jovem brasileira que nos
acompanhava.
A saída, eles nos forneceram
“prasad”, um doce feito com leite e coco, muito comum na Índia. Significava uma
atenção para com o visitante, uma forma de saudá-lo. Todos os lugares sagrados
oferecem “prasad”.
“Namaste” – ( O Deus em mim saúda o
Deus em ti) As mãos se juntaram em reverencia e a imagem do eremita nos
acompanhou enquanto subíamos a escadaria. ( Diário de viagem, década
de 1980)
*Fotos da internet
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terça-feira, 20 de março de 2018
O ÚLTIMO TOMBO EM PARIS
Do
outro lado da rua havia uma loja de flores. Já havíamos percorrido a cidade
toda atrás dessa loja e sempre a mesma resposta: “Não temos sementes à venda”.
A loja de flores em frente ao Sena vendia sementes de todas as qualidades.
Imaginei o Retiro das Pedras cheio de flores azuis, vermelhas, amarelas, vindas
da França....
Era preciso atravessar a rua para alcançar aquela loja. Hora do
rush, carros parados, sinal fechado para eles. Resolvemos atravessar a rua ali
mesmo, ente os carros parados, à espera do sinal verde. O caminho era estreito,
mas dava passagem para um de cada vez. Hesitei ao primeiro instante. “Será que
dou conta?” ”Vem, dá tempo”. As outras foram na frente, resolvi ir também.
Olhei para o outro lado da rua, naquele momento percebi que a rua era larga,
teria de andar depressa. Estava com um tênis novo, o numero acima do meu. Tênis
folgado não dá para andar depressa.
Fiquei
aflita, não vi a hora nem por quê. Tropecei e caí. Só me lembro de ver um carro
à minha frente com um para-choque enorme perto de minha cabeça, como uma
guilhotina. Do outro lado do Sena Maria Antonieta fora guilhotinada um dia. A
dor na testa me dizia que eu caíra de cabeça no asfalto, a dor no joelho
anunciava que a perna também sofrera.
Só tive tempo de buscar meus óculos que haviam sido jogados à altura das mãos,
no asfalto quente de Paris. A loja de flores estava em frente à nossa espera.
Fomos para lá. Sentei-me atordoada num banco que o dono da loja me deu. Solícito,
foi buscar água para eu beber. Eu estava em
estado de choque. Naquela hora, percebi a solidariedade dos franceses. “Deixa por
minha conta, nos disse o dono da loja, vou acessar o corpo de bombeiros.
“Minha
cabeça doía e, ainda atordoada com a queda, comecei a escutar as sirenes
tocando cada vez mais alto.. Os bombeiros estavam se aproximando.
Só
me lembro de vários olhos azuis me atendendo e mãos me enfaixando a perna
depois de derramar iodo. Lembrei-me da infância – todas as quedas eram curadas
com iodo. Os bombeiros fecharam a mala azul dos primeiros socorros, guardaram a
maca e me deram alta ali mesmo, na loja de flores. As sementes não foram
compradas, não havia clima para isso, mas o cheiro de flores e a solidariedade
daqueles franceses nunca serão esquecidos. Era o nosso último dia em Paris,
viajei para o Brasil com o joelho enfaixado e um galo na testa. Comprei arnica
C5 na farmácia em frente e fui tomando 3 glóbulos de hora em hora para evitar
hematomas futuros.
A
notícia de meu último tombo em Paris
circulou entre os amigos como um evento a mais no meu currículo. As pessoas tinham
sempre um caso para contar sobre tombos. “Meu pai caiu no banheiro quando
viajava e quarenta dias depois começou a
ficar esquisito, esquecendo tudo...Teve que ser operado na cabeça.
Fiquei
ciente dos sintomas: dor de cabeça alucinante, vômitos. Diante daquelas
referencias, eu também acordava com dor de cabeça e enjôo.
“Dor
de cabeça não tem importância, só se ela for de madrugada!... e era justamente
de madrugada que vinha a dor.
Fiquei
dias à frente do fogo, sem sair da minha casa no Retiro das Pedras, esperando a
tão temida “demência” resultante de choque na cabeça...Ainda faltava muito
tempo para terminar meu estado de observação. Falaram-me até em sessenta
dias... Perguntei a uma pessoa “Você está me achando esquisita?” ”Ora, você
sempre foi”.
Então
desisti de esperar e resolvi aceitar o convite do Artur para viajar com o grupo
UAKTI pelas montanhas do Rio: Teresópolis, Nova Friburgo e depois Rio de
Janeiro. Acompanhei os músicos, o grupo brilhou nas alturas, sob o maior frio
do ano – trazendo instantes de grande beleza para uma platéia jovem e
entusiasmada.
Nada
como um dia depois do outro, com eventos sucessivos, os positivos encobrem os
negativos. Fiquei boa sem tomar remédio, só substituindo as cenas no panorama
da vida.
*Fotos
da internet
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