Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
sábado, 26 de março de 2011
SUBINDO OS HIMALAIAS
Diário de viagem à Índia - década de 80
Estávamos em Sarnath, perto de Benares, lugar onde Buda fez o primeiro sermão. Entramos no templo mais próximo, sete velas acesas, três de cada lado e uma no meio, iluminavam uma enorme estátua de Buda. No silêncio do templo nos concentramos sem perceber que lá fora se armava um temporal. A chuva violenta e o vento penetrando pelas janelas apagou todas as velas, uma por uma. Restou a do meio que iluminava o Buda. Naquele momento uma mudança aconteceu dentro de nós. Estávamos com passagem para seguir viagem no dia seguinte para Calcutá, mas as velas acesas de Buda chamou-nos para os Himalaias.
Começamos a peregrinação sem programa definido, amontoadas num ônibus velho cheio de hippies. Os europeus invadem a Índia. Trabalham na Europa quatro meses e passam oito viajando pelo oriente. Naquele dia, subimos juntos a mesma montanha. Chegamos à noite na fronteira com o Nepal e tiramos visto para entrar no país ali mesmo. Lampiões acesos, no meio do vozerio de gente que disputava e oferecia hospedarias.
-“Perdão madame, meu hotel não tem nenhuma estrela!...”
-“Não tem importância, você tem um céu todo estrelado por cima do seu hotel”, respondi.
Seguimos o guia e nos acomodamos num hotel pequenino.
Os Europeus são práticos, dormem dentro de sacos de viagem, armam cortinados e acomodam-se da melhor maneira possível, livres dos mosquitos.
No dia seguinte o agente do hotel procurou-nos e disse: “Se vocês quiserem viajar até Lumbini, onde nasceu Buda, tem que ser de carona. Eu mesmo posso arranjar para vocês uma carona de caminhão.”
Fomos na carroceria de um caminhão, sentindo a paisagem embaixo desfilar diante de nós. O guia aconselhou-nos também a viajar de carro de boi e seguimos sentadas em cima da palha até Lumbini, uma aldeia situada na fronteira com a Índia. Lumbini não tinha turismo organizado, parecia uma cidade abandonada com muitas ruínas. Andamos a pé pelos lugares santos. Um conjunto de templos de diversas religiões na mesma praça fizeram-nos lembrar de uma das características do budismo, que é a tolerância e o respeito a todas as crenças. Segundo o budismo, a verdade não tem rótulos, nem é propriedade de ninguém. Entrando em um templo budista sentei-me no chão, no centro de uma imensa mandala. Devia ter ficado algum tempo de olhos fechados quando senti alguém na minha frente. Era um monge vestido de alaranjado.
-“Siga-me”, disse-me ele.
Fomos até uma salinha modesta com pilhas de livros.
Vou lhe dar uma prática muito simples para você chegar ao estado de vazio:- “Relaxe. Respire fundo e comece a observar o seu corpo, de fora para dentro. Tome consciência de sua pele, dos músculos, dos ossos, dos seus órgãos internos, da circulação do sangue em suas veias. Lembre-se de tudo que constitui o seu corpo até chegar à consciência de que você é uma célula, um átomo, um núcleo e depois o vazio.”
O budismo não é baseado na crença incondicional, mas na experiência direta de cada um. Senti naquele monge desconhecido o exemplo vivo de um ser que alcançou o caminho do meio. O caminho do meio é o caminho do equilíbrio, é a ausência do ascetismo exagerado e também da constante e insaciável busca de prazeres. Esse foi o tema do primeiro sermão de Buda.
*Fotos da internet
sexta-feira, 18 de março de 2011
REFLEXÕES SOBRE O JAPÃO
Em 1945 quanto terminou a segunda grande guerra mundial, um momento de silêncio pairou sobre a terra. Do outro lado do mundo duas cidades japonesas haviam sido devastadas pela bomba atômica. Naquele tempo não havia televisão, internet e celulares, tínhamos notícias pelo rádio e os jornais. A guerra terminara, com o sacrifício de milhares de inocentes.
Hoje, com os avanços dos meios de comunicação, imagens impressionantes de destruição chegam até nós. O tsunami negro, ameaçador, vai engolindo tudo em sua passagem: barcos, casas, pontes, estradas, o chão vai se abrindo, crateras surgem no meio do caminho e uma população heróica obedece a ordem que a situação de calamidade começa a exigir. O japonês supera as dificuldades com muita dignidade, inerente ao seu caráter. São impressionantes as manchetes:
“Uma falha na crosta terrestre, devido ao encontro de duas placas tectônicas, provoca um terremoto e tsunami no Japão”
“O terremoto e o tsunami no Japão foram os maiores na história do país”
“Toda a costa do Pacífico está em estado de alerta”
“Japão confirma explosão e vazamento radioativo na zona nuclear”
Enquanto escuto as notícias pela internet e televisão, dando detalhes impressionantes da energia da natureza e o seu terrível poder de destruição, vou refletindo sobre os perigos de nossa era tecnológica e os avanços do mundo explorando energias ameaçadoras. De minha casa eu posso ver as ojivas nucleares sendo ameaçadas e a bomba de hiroshima volta à minha memória.. As bombas trouxeram a morte e a destruição para duas cidades japonesas hoje reconstruídas pelo poder e a coragem de um povo heróico no sofrimento.
Revejo também a minha viagem ao Japão em 1970, quando aderi a um grupo de assistentes sociais que se dirigiam à Expo- 70.
O Japão assimilou a civilização ocidental e, apesar da conservação de hábitos tradicionais, houve simultaneamente uma aceleração de seu progresso. Perdura o culto às imagens na tradição dos templos budistas: águas jorrando das fontes sagradas, nuvens de incenso e velas acesas.
O artista japonês não se despersonaliza quando assume o Ocidente, porque o espírito oriental é revelado através da sensibilidade , da inventividade e da intuição, que supera a razão. Talvez, por isso mesmo, suas pinturas emocionem tanto o homem receptivo à Realidade Espiritual.
Enquanto o mundo ocidental preocupava-se com o homem, e o renascimento rendia-lhe verdadeiro culto como centro do universo, o oriente silenciosamente engrandecia a natureza. As grandes paisagens, em rolos enormes, dos museus de Kyoto e Tóquio, são testemunhas de uma arte sempre renovadora. De sua influência sobre o Ocidente nasceu a pintura informal.
Nikko é uma espécie de Teresópolis do Japão. Situada no alto de uma montanha com hotéis pitorescos é um local de férias. Ao longo da estrada observávamos palácios e castelos japoneses de vários andares, torres superpostas entre a exuberante vegetação. Atravessamos um túnel que nos levava ao outro lado da montanha, aos terraços onde podíamos ver as cachoeiras. Máquinas a tiracolo levantavam-se e ouvia-se um repetido bater de fotos.
O japonês preserva cuidadosamente seus recantos de meditação. Esses são templos, onde a natureza é o altar para o encontro com a eternidade. Na tranqüilidade desses jardins a alma recebe como benção o mistério nascido da terra.
A pedra em seu silêncio nos conta histórias do passado.
Ela não se reproduz como a planta. Existe. Quando foi criada? Ninguém sabe. E neste sentido de eternidade a pedra é mística e tem significado profundo.
Em Kyoto, os jardins de pedras sem plantas, são despojados como a doutrina Zen. O Zen- budismo foi a alma da arte japonesa.
Essas lembranças continuam vivas em minha memória e é com imenso pesar que vejo um povo com tanta espiritualidade e sensibilidade para a arte, passar por uma prova tão difícil.
*Fotos da internet e postais
quinta-feira, 10 de março de 2011
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