Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
domingo, 9 de janeiro de 2011
NOSSA INFÂNCIA I
Minha irmã, Lourdes me enviou o depoimento sobre nossa infância, que transcrevo abaixo:
"Morávamos em uma casa grande de dois andares na Av Afonso Pena, a principal avenida de Belo Horizonte.
A casa de numero 2.764 estava situada no alto da avenida, perto da casa de meu avô, que morava na rua Piauí. Éramos três irmãos naquela época, eu, Helena e Paulo.
Na frente, e no lado esquerdo da casa, havia um jardim com canteiros de flores variadas.
Cada um de nós tinha um canteiro para tomar conta.
O meu, ficava no centro do jardim, na frente da casa. Era redondo, cercado de grama pêlo de urso e todo plantado de miosótis.
Meu jardim tinha grande efeito visual, todo de flores rasteiras de cor azul claro.
Eu o regava todos os dias, tirava o mato, e olhava, para ver se não tinha praga.
Mamãe não me deixava colocar esterco para adubar a terra porque tinha medo de tétano.
O esterco era colocado por nosso jardineiro, um velhinho que trabalhou muitos anos lá em casa.
O canteiro de Helena era comprido, cheio de monsenhor branco. Também era tratado por ela diariamente.
O canteiro de Paulo ficava perto do muro, somente de samambaias muito verdes e dobradas.
Junto ao muro tinha umas begônias cheias de flores em cachos.
Eram os caules destas begônias que tirávamos para mastigar. Nem pensávamos que poderiam ser venenosas.
Depois de regar o jardim, eu e Helena íamos brincar de casinha de boneca, enquanto Paulo jogava bolinha de gude no terreiro de terra socada, juntamente com Geraldo filho de tia Lolô.
Tia Lolô chamava-se Leonor e era uma pessoa muito bonita.
Era elegante e andava muito bem vestida, tudo feito em casa por ela mesma.
Geraldo era filho adotivo. O filho verdadeiro de tia Lolô chamava-se Fernando, um menino muito lindo, com o cabelo todo cheio de cachos.
Morreu com dois anos de idade, de tuberculose galopante.
Mamãe contava que a empregada levava Fernando para brincar na casa vizinha.
A vizinha era tuberculosa. Fernando apanhou e morreu em dois meses. Naquele tempo não haviam antibióticos.
Tia Lolô nunca mais teve filhos e resolveu adotar Geraldo, sobrinho do tio Manoelzinho, seu marido. Pessoa muito prevenida, levava sempre consigo coisas úteis como uma vela, um canivete, uma rolha, um rolo de barbante e uma chave de fenda pequena, caso fosse necessário. Nas festas de família, caso acontecesse algum imprevisto, recorríamos a ele.
Paulo brincava com Geraldo, quase da mesma idade e nós corríamos em volta dos canteiros e em torno da casa, brincando de esconde-esconde.
A nossa casa tinha dois pavimentos. O escritório de papai era na parte de baixo no porão: 3 quartos com estantes cheias de livros, uma mesa muito bonita e cadeiras para alguma visita. Nunca vi nenhuma visita, papai gostava de ficar sozinho.
Naquele lugar de trabalho muito limpo e arejado, ele se isolava para ler e estudar.
Nas manhãs geladas de Belo Horizonte corríamos para o quintal sob o sol quente, sol de sertão, com um céu muito azul, de um azul que só existe em Belo Horizonte.
Brincávamos no quintal de terra batida, perto do galinheiro, vendo as galinhas ciscando, os galos cantando, e os pintinhos passeando atrás da mãe.
Galinhas eram gordas mas nós não deixávamos matá-las.
Para fazer galinha ao molho pardo, alguém tinha que ir no mercado comprar.
As nossas conhecidas eram nossas amigas e não podiam ser mortas.
Depois do banho, numa banheira grande,duas horas da tarde ,com o sol batendo direto na banheira ,mudávamos o local de brincar.
Passávamos para uma área atijolada onde pulávamos corda ,traçávamos amarelinha e chamávamos os vizinhos para brincar.
Às vezes deitávamos no chão e ficávamos vendo as nuvens passarem em grandes flocos.
Formavam castelos e bichos de todas as formas.
Uma romãzeira, carregada de romãs, ajudava a enfeitar a paisagem do pátio atijolado.
As mangueiras do vizinho ficavam cheias de mangas bem na nossa frente.
E a noite ,o perfume de dama da noite, tomava conta da cidade misturando-se com o perfume de magnólia. As magnólias eram plantadas nos calçadas que se chamavam passeios.
Isto aconteceu há tanto tempo,tanto tempo e no entanto, parece que foi ontem."
*Fotos da internet
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
PORTINARI,VISTO POR DOIS IRMÃOS
Portinari, amigo pessoal de Guignard, recebia com o maior carinho os seus alunos e foi por meio dessa amizade que pude acompanhar de perto a elaboração dos painéis mais famosos de toda a sua carreira artística: os afrescos da Igreja da Pampulha e os dois painéis “Guerra e Paz” pintados para a sede da ONU em Nova Iorque.
Aprendi muito com o mestre. Freqüentava aquele ateliê no porão de uma casa antiga em Cosme Velho e ali o via pintar os retirantes e toda a série trágica do nordeste brasileiro.
Assisti Portinari pintar “Guerra e Paz” , dois grandes painéis monumentais. Guerra e Paz foi pintado num prédio em construção no bairro de Botafogo, cedido ao mestre para realizar com maior facilidade o seu trabalho que exigia mais espaço. Fui ao Rio especialmente para vê-lo pintar.
Meu irmão mais novo de 12 anos estava interno no colégio Santo Antonio de Niterói. Fui buscá-lo para ver o mestre pintar. “Fique sabendo que isso é um privilégio imperdível”.
Ficamos horas observando Portinari pintar. Ele teria de subir andaimes para alcançar os pontos mais altos, subia e descia com agilidade.
Foi naquela ocasião que o meu irmão resolveu dar uma de crítico de arte e comentou que não gostava do amarelo, ali naquele determinado lugar.
Portinari olhou para trás, viu o menino e não comentou o fato, apenas perguntou: “O senhor por acaso é pintor?”
Aquele palpite inconveniente me fez remeter o jovem irmão para a casa de tio Enio, em Copacabana.
Depoimento Luiz de Salles Coelho, irmão de Maria Helena
Portinari vinha do Rio acompanhado de sua equipe de artistas. Portinari subia em escadas para pintar, ajudado sempre por seu irmão Leo.
Lembro-me da Escola de Belas Artes no parque e do filho de Portinari, que tinha um pouco menos que a minha idade, e brincamos juntos naquela visita que fizemos à Igreja da Pampulha. Hoje vejo que se tornou importante matemático, e PhD pelo MIT. Além de professor, o João Cândido Portinari - este o seu nome - encarregou-se de organizar e tomar conta da memória e obras do pai. É o presidente do “Projeto Portinari”. Há poucos dias apareceu na mídia participando de uma importante iniciativa e que vale a pena comentar. Portinari havia sido convidado pelo Governo brasileiro para pintar o painel Guerra e Paz, que o Brasil ofereceria à ONU para ser colocado na entrada de sua sede em Nova York. Juscelino , presidente e incentivador das artes e artistas ficou sabendo que Portinari não seria convidado para a inauguração do painel duplo em NY, por ser comunista. Não pensou duas vezes. Mandou montar o painel no Theatro Municipal do Rio, para que seu autor e o público o pudessem admirar em um ambiente digno. Fica aqui um apelo e sugestão ao João Cândido. Numa homenagem a JK, por que não culminar trazendo-o também para BH? Lugares e patrocínio não hão de faltar para esta exposição aos mineiros: Museu da Pampulha, Palácio da Liberdade, Palácio das Artes, Casa FIAT da Cultura, e até mesmo Inhotim...
*Fotos : Tasso Marcelo/AE e internet
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
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