segunda-feira, 14 de agosto de 2017

CARTA PARA MARÍLIA E PAIXÃO

Marília e Paixão,

Para vocês dois o meu abraço muito amigo aqui de longe da Índia, mas muito perto em pensamento.

Estou vendo coisas tão diferentes que às vezes fico pensando se será possível mesmo. Há famílias de macacos pelas ruas, vacas andando como se estivessem no pasto, gente vestida como se fossem para um baile de gala, tudo somado à pobreza, à religião e à ecologia. Nos grandes templos cada guru defende a sua imagem, isto é , cada imagem de deusa ou deus é guardada por um homem vestido de branco, que coloca um pó vermelho na testa da gente. Fiz um turismo lindo por Mysore, perto daqui. Templos maravilhosos, prédios de mil e uma noites...

Vocês deviam vir, escrevam para o embaixador da Índia, é bem interessante um pouco de permanência aqui para a gente refletir e ver coisas.

Os choques dão um grande aprendizado de vida e a gente é constantemente despertada com o novo.

Ontem fiz tantos exercícios na minha yoga, que hoje estou em casa de repouso.
Abração para vocês e para a Lula.

Helena

Resolvi fazer meus desenhos entrosarem com os deles.

*Fotos de arquivo
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segunda-feira, 7 de agosto de 2017


CARTAS DA ÍNDIA IV

Querida filha,

Assistimos à escolha do papa. Foi tão comovente! Uma lua vermelha subindo devagar, os cardeais também de vermelho e o papa sorridente, de braços abertos parecendo abraçar o globo terrestre. Foi um choque, a escolha do polonês, mas Maurício e eu vibramos de alegria. No meio da confusão uma senhora velha desmaiou . 
Houve gente em quantidade para socorrê-la. Ela na maca, desmaiada, segurava a peruca e a bolsa. Achei  engraçada a situação. 
O lado bonito da hora, a emoção do papa polonês, 300.000 pessoas olhando a Basílica de São Pedro, o Espírito Santo descendo, a lua subindo vermelha e se tornando cada vez mais branca no alto do céu, a cara dos italianos quando souberam do  papa polonês, e a tal senhora desmaiada segurando a peruca. Não é engraçado o mundo? 

Tudo acontecendo ao mesmo tempo, de uma só vez. Quando a gente não se envolve, curte tudo. A tática é ser realmente parte do todo e às vezes se enxergar com os olhos dos outros, como eles nos vêm. É bom porque os pontos de vistas são variados.

O Euler está feliz no quartinho e as opiniões variam – os velhos morrem de pena dele e os novos morrem de inveja... Enquanto isto ele está como quer, rede no quarto, geladeira embaixo, luzinha azul para descansar a vista quando chega, independência.

Encontrei a casa do Retiro linda, toda arrumada e o Euler tocando a Barrinha para a frente. Reformas na casa do Seu Antonio, reformas na casa central que afundou o chão de cupim. Minhas rendas estão indo todinhas para lá e eu, se quiser voltar à Índia, terei de ajuntar uns cobres. Mas tenho a faca e o queijo na mão, é só pintar. Não vou fazer quantidades de quadros, mas o que fizer cobro caro.

Abraços saudosos. Um beijo muito grande nos amigos (mande endereços). Abração na Melodia, no Rubem – Sara, na Erika, na Jacy, Norma, etc. Vou escrever ao Kalakshetra quando decidir a não ida em janeiro. Deixo a vida resolver e é melhor.

De sua mãe,
Helena (Carta do Brasil para Eliana, que ficou na Índia)

Fotos de arquivo e da internet

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terça-feira, 1 de agosto de 2017


70 ANOS DE CASADA

Ontem comemorei
Meus 95 anos
Com filhos
Netos
Bisnetos
Irmãos
Cunhados
Noras
Genros.
Quanta gente!
Muita gente
Que veio de
Um casamento.
Hoje
Completo
Setenta anos
De casada.
O Luiz já foi embora
Não está aqui para ver
Os seus netos
Bisnetos
Que encheram
A casa
Cantaram
Em português
Inglês
Italiano.
Os meninos de hoje
Aprendem depressa.
Me lembro de papai
Dizendo:
“O inglês é a língua
Do futuro.”
E todos nós aprendemos
Inglês.
O Luiz também
Mandou todos para
Cultura Inglesa.
Estou fugindo do assunto
Com esta história de língua.
Volto agora para o dia
Do meu casamento
Lá na Igreja de Santana.
Eu vestida de noiva
De braço dado com papai
O caminho até o altar
Parecia enorme.
Luiz vestido de noivo
Estava lindo!
Gente me abraçando
E me seguindo
Até o Castelinho
Onde eu morava
Na avenida Afonso Pena.
Comes e bebes
Doces e salgados.
Virei foco de atenção
Estava doida para acabar a festa.
Parentes vieram do Rio
Numa grande cadillac
Ocuparam nossa casa
Trouxeram filhos e babás.
Eu já arrumara a mala
Para a lua de mel
Quando vi o Luiz
Carregando uma mala pesadíssima.
“O que é que você está levando
Nesta mala tão pesada?”
Perguntei admirada.
São livros de medicina
Para estudar...
“É assim?”
Não tive dúvidas.
Já que você vai estudar
Espere um pouco
Vou buscar outra maleta
Com tintas
E pincéis.
Assim começou nossa vida
De casados
Desde a  lua de mel
Luiz estudando
E eu pintando
Ou desenhando.
Fomos passar um mês
No Rio de Janeiro.
Ali o Luiz participou
De um concurso
No IPASE.
Acabou perdendo...
Eu desenhei sem parar
Levava cadernos para
O Largo do Boticário
E ali desenhava.
Completei 2 cadernos
E pintei um quadro
Que mais tarde presenteei
Minha tia Lilita
Que me cedeu
O apartamento
Para passar a lua de mel.
Hoje este quadro está sumido
Gostaria de revê-lo.
Mas tenho a foto.
O quadro ganhou
Premio de menção honrosa
No Salão do Rio.
Com a morte da tia
Passou para suas netas
Que o transformaram
Em moeda...
Ele foi visto num antiquário
E nunca mais tive notícias.
Quem sabe eu coloco na internet?
A internet é um meio
De comunicação
Que aproxima povos
Culturas
Atravessa o tempo
No Eterno Agora.
Enfim a minha história
Já foi dita
Em 31 de julho de 1947
Eu me casei com o Luiz
Ele me ajudou
A crescer na arte.
Agora, cercada de filhos, netos e bisnetos
Estou soprando um bolo de velas.
Minha bisneta do Rio
Soprou as chamas da lareira
Como se fosse um imenso bolo.
Assim é a vida
Todos juntos, felizes, alegres
Criativos
Cada um na sua.

*Fotos de Maurício Andrés e de arquivo

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