terça-feira, 20 de setembro de 2022

MHA, CENTENÁRIA DE IPAD I

 

 

Recebi do meu neto Roberto Andrés o artigo  publicado na Revista Piauí, que homenageia, de forma afetiva e lúdica o meu centenário, ocorrido em 2 de agosto. Desse artigo selecionei alguns trechos.

 

“Maria Helena Andrés chega aos 100 anos pintando murais e criando modinhas para caçoar de si mesma

Noventa e sete,/ noventa e sete,/ hoje eu viajo/

é pela internet./ Já viajei/ a vida inteira,/

mas no momento resolvi/ ser blogueira.

 Com essas palavras, minha avó celebrava sua chegada aos 97 anos. Arrancou gargalhadas dos familiares após os parabéns quando, com sua voz de contralto, entoou a modinha, enquanto balançava as mãos com os indicadores em riste. A graça advinha de uma situação verdadeira – Maria Helena Andrés havia sido uma viajante pródiga e fazia alguns anos que resolvera alimentar, semanalmente, não um, mas dois blogs na internet.

Desde que se tornou nonagenária, minha avó passou a criar cantigas para narrar o próprio envelhecimento. A cada ano, uma letra diferente. Talvez tenha sido a maneira que encontrou para lidar com uma fase que costuma ser vista como fim de trilha. Ao invés de incorporar a melancolia resultante das debilidades que a velhice traz, decidiu fazer troça da própria idade, com graça e vivacidade. O expediente, aliás, não é novo para a autora dos versos.

 

Quando era criança, Maria Helena sofria com um tio que vivia zombando dela. O motivo da chacota eram os pelos que brotavam discretamente no interstício entre boca e nariz da sobrinha. Como se vê, os “tios do pavê” têm longa história neste país. A resposta da menina veio por meio de uma quadrinha, cantada à frente de toda a família:

Tio Freitas tem por mira/ caçoar do meu bigode,/

mas bigode a gente tira/ e careca não se pode.

Consta que a zoeira do tio teve fim nesse dia.

 

Embora fosse uma letrista talentosa para modinhas, Maria Helena Andrés não teve a música como sua arte. Aos 14 anos, ela chamou a atenção na escola ao desenhar artistas de cinema com grande realismo, a partir de fotografias de revistas. Joan Crawford, Errol Flynn e Greta Garbo foram alguns dos retratados pela adolescente, que fazia desenhos impecáveis nas proporções, na perspectiva, nos efeitos de sombras e volumes. Lygia Clark, que era sua colega no colégio Sacre Coeur de Marie, também vivia às voltas com desenhos na sala de aula.
Aos 18 anos, Maria Helena desembarcou no Rio de Janeiro para estudar arte com Carlos Chambelland, um professor de viés acadêmico. Ela havia morado na cidade em sua primeira infância, quando seu pai, Euler de Sales Coelho, fora deputado federal. Com a Revolução de 1930, o Congresso foi dissolvido e sua família retornou às pressas para Belo Horizonte. Maria Helena contava 8 anos quando o grupo de Getúlio Vargas tomou o poder e deu fim à República Velha.

De volta ao Rio de Janeiro, uma década depois, a jovem aspirante a artista hospedou-se na casa de sua avó, enquanto frequentava os cursos de pintura. Seu pai ameaçou buscá-la de volta quando soube que a filha pintava modelos nus na escola. O ex-deputado recebeu um pito da própria mãe. A matriarca da família defendeu a permanência da neta no curso, afirmando que não sabia a razão para a pintura de modelos nus, mas que, “se o professor diz que é necessário, ela vai fazer”.

 De todo modo, foi em Belo Horizonte, e não no Rio de Janeiro, que a artista teve sua formação artística mais consistente. A capital mineira era governada por Juscelino Kubitschek, àquela época um jovem político com aspirações modernizantes. JK convidou Alberto da Veiga Guignard, um artista reconhecido, com longa passagem pela Europa, para ensinar arte na cidade. Maria Helena foi da primeira turma de alunos de Guignard, na escola recém-inaugurada em um porão no Parque Municipal.


 Guignard não oferecia a formação que se chamava à época de academicista. Ou seja, não buscava ensinar a reproduzir com fidelidade as formas de representação canônicas, mas abrir espaço para que os estudantes descobrissem seus modos de expressão. “Olhem os céus de Minas, eles têm uma transparência semelhante ao cristal”, ele costumava dizer aos alunos. A turma que ali se formou marcou uma nova geração de artistas, que trouxe importantes contribuições à arte brasileira nas décadas seguintes.

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quarta-feira, 1 de junho de 2022

ATELIER DO RETIRO DAS PEDRAS I

 

 


Decidi escrever sobre o meu ateliê do Retiro das Pedras, situado no alto das montanhas de Minas Gerais.

Da janela eu posso ver a paisagem que se estende até que o verde vai se tornando azul, azul claro, lilás.


As montanhas são lindas e servem de inspiração para os meus quadros.

O ateliê começou em 1974, quando terminaram as obras da construção da minha casa no Retiro.


Escolhi sem pestanejar este local abençoado, lugar de sonho e meditação. Faço minha meditação diária, visualizando a paisagem e agradecendo o privilégio de estar aqui.

Da janela eu vejo o por do sol e a lua cheia. Dali mesmo eu fotografei uma nuvem, uma "Asa de anjo" no céu, um sinal de que estamos protegidos.


 

PAINEL DOS CONFINS



 O painel para o Aeroporto Internacional dos Confins foi pintado na sala desta minha casa, um espaço aberto e amplo. Hoje está dividida em sala de visitas, ateliê, sala de TV e sala de computador. Quando recebi a encomenda comecei a viajar no espaço interplanetário. Voltei às viagens espaciais da década de 1960 realizadas vinte anos antes. Voltaram os discos voadores, a visão lírica do cosmos, o Dom Quixote espacial.



Todo um acervo de memórias veio a tona. A partir delas comecei a  gravar em pedra litográfica estudos para o painel.

Desenhei aviões, discos voadores, seres espaciais. Com isto eu me preparava para a realização de uma obra de grande porte.

Confesso que vivi momentos de grande alegria. Ninguém sabe o quanto de estudos, ensaios, rabiscos são necessários para que possamos enfrentar uma tela de 10 metros por 2 metros e meio.

Naquela ocasião a sala foi totalmente dedicada a servir de ateliê. Eram 4 painéis enormes de madeira, montados sobre rodinhas. Usávamos uma escada para alcançar as extremidades superiores e muito jornal no chão.

Passei alguns meses mergulhada no sonho de realizar a minha "Plataforma   Espacial " para o aeroporto de BH. Ouvia música o tempo todo e só parava de pintar quando o cansaço me impedia. Ivana me ajudou o tempo todo.

Quando estávamos quase terminando o trabalho, alguém de casa sugeriu fazer um churrasco para comemorar.

Chamei a Ivana:

"Vamos acabar com este quadro hoje, amanhã vai ter cheiro de churrasco!

Trabalhamos até de madrugada. Só fomos dormir às 4 horas da manhã. Mas o painel ficou pronto. Quando acordamos no dia seguinte, havia uma borboleta branca pousada no quadro. O formato era diferente, parecia um disco voador.



Tudo parecia me dizer que esta seria a minha obra prima, a mais importante da minha vida.

O painel "Plataforma Espacial" ficou alguns anos exposto no Aeroporto dos Confins, ocupando a parede do desembarque internacional. As pessoas chegavam de viagem e não tinham muito tempo de contemplar o painel. Mesmo assim foi muito apreciado.

Mas a vida dá suas voltas e proporciona mudanças inesperadas.

Por ocasião da reforma no aeroporto, as partes laterais do painel desapareceram.

Tentamos investigar e pesquisar onde estariam, entrevistando pessoas que poderiam nos informar sobre o que havia acontecido.

Até hoje não sabemos.

A parte central foi instalada e pode ser vista no embarque da empresa aérea "Azul".

Esperamos que este triste acontecimento seja esclarecido e que as partes laterais do painel apareçam.

 Quem passou noites em claro para realizá-lo, agora passa noites em claro com esta interrogação: aonde estarão as duas partes do meu painel? Enfim, a história do Painel de Confins que me causou muita alegria, me causou também muita tristeza.

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domingo, 13 de março de 2022

ATELIER NA RUA STA RITA DURÃO 432

 

 Mudamos pra uma casa na rua Sta Rita Durão, pouco abaixo da rua Ceará.  A família crescia, nossa casa na 347 estava pequena.



A casa número 432 pertencera ao tio Petrônio. A porta da casa na varanda, ainda conservava a logomarca desse tio, meu padrinho, que se mudara para o Rio.

Meu ateliê também mudou acompanhando a família.  Ali escolhi o quarto do andar térreo com espaço suficiente para projetar  na tela ou no papel a minha série de barcos, a série de guerra, as madonas, os astronautas e a série cósmica...







 As coisas aconteciam lá fora, num tumulto sucessivo de experiências.

Estávamos no regime militar, os jovens corriam risco. As lembranças de um passado tranquilo, na fazenda, pintando aquarelas estavam distantes. E a tela branca era o refúgio necessário  para encontrar momentos de revolta e momentos de paz.

O ateliê daquele porão recolhia as ideias.

 Aquele porão se estendia para outras épocas, onde as lembranças dos tempos antigos costumavam vir à tona. No ano de 1930 durante a revolução que colocou Getúlio no poder,  tio Petrônio abrigou naquele espaço 40 pessoas entre crianças e adultos que ali dormiram em colchões espalhados pelo chão. Parentes próximos muito amigos ali se refugiaram. As paredes daquele porão eram extremamente reforçadas, lembravam uma fortaleza.

As balas atravessavam os vidros das janelas do andar de cima.

Aquele ambiente ainda carregava um pouco do passado  sombrio. Mas a arte também ali se manifestou  desde os meus tempos de criança.

Me lembro das brincadeiras de fazer cinema, um teatro de sombra improvisado. Ali brincávamos  de esconder nos abrigos subterrâneos e improvisávamos aulas criativas.


Mais tarde, quando fomos morar naquele casarão, a família já aumentara, sempre acompanhada de eventos criativos. Nos dias de chuva, como as crianças não podiam sair para fora, organizávamos uma forma criativa de mantê-los em casa, criando uma cidade de isopor com casas, ruas, carros passando, prédios cinema. Os dois filhos menores sentados no chão criaram uma cidade como o “presépio pipiripau”...

Tudo isto acontecia na entrada da casa, na sala de visitas. Quando chegava alguém, eles faziam sucesso como artistas mirins.

Foi na época da ditadura militar e a forma de compensar a repressão era deixar as crianças e adolescentes exercerem seus dons criativos. Enquanto isso lá no porão, outras coisas aconteciam.

Maurício criou um laboratório de fotografia e  podíamos apreciar o processo fotográfico da época quando as películas eram lavadas numa bacia e naquele banho as figuras surgiam.


Entrei para ver o processo de uma foto e me foi possível ver as imagens virem à tona.

Dali surgiam, como uma mágica, as figuras mais importantes da época. Che Guevara era um  deles.



Na garagem, coberta com uma trepadeira de flores rosadas, todo sábado acontecia a Escolinha de Arte Andrés, dirigida por minhas filhas. Depois de um curso com o professor e arte educador Rui Flores, a escolinha, inspirada também na Escolinha de Arte do Brasil, durou 12 anos e formou reconhecidos artistas de Belo Horizonte. Mais tarde ela teve prosseguimento com o grupo “Risco e rabisco” coordenado por Isaura Pena. Tudo naquela casa respirava arte. E tudo isto devemos à generosidade e ao amor à arte de minha mãe Nair,que a todos incentivava.



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sábado, 26 de fevereiro de 2022

ATELIÊ NA RUA SANTA RITA DURÃO 347

 


Me vejo nos anos  1950, cercada de filhos pequenos, naquela casa da Rua Santa Rita Durão 347, cumprindo a tarefa de esposa, dona de casa, mãe de  6 filhos, sempre acompanhados por primos, filhos de minha irmã, Lourdes.



No quintal desta casa eu aproveitei um barracão para ali fazer o meu ateliê. De lá eu podia observar as crianças brincando enquanto eu pintava minhas “Cidades Iluminadas”.




 Por ali passaram vários críticos de arte, entre eles Mário Pedrosa.

Me lembro das travessuras das crianças, de seus desenhos feitos em papel de radiografia, dos meus desenhos pequeninos feitos a noite, enquanto as crianças dormiam . A mesa da copa era minha prancheta e a copa meu ateliê.  


Não via o tempo passar, estava totalmente concentrada nos desenhos pequenos...Mais tarde eles serviram  de base para os quadros concretistas que eram  feitos noutro ateliê, um barracão no fundo do quintal..

Enquanto isso o Luiz datilografava suas teses da área médica.

Hoje, 60 anos mais tarde, quando estou fazendo as colagens ou desenhos que são releituras da década de 1950, ainda escuto o tic tac da máquina de escrever do Luiz datilografando suas teses.. A minha série dos “Boizinhos” foi considerada pelo crítico do Rio de Janeiro, Antônio Bento, como projetos de escultura em fio de ferro.

Consegui guardar uma boa quantidade de desenhos que se tornaram esculturas e colagens, um resgate do construtivo em minha trajetória.





No meio a esses desenhos destaca -se a série “Via Sacra” em bico de pena. Grande parte dos desenhos foram feitos à noite, na copa, enquanto as crianças dormiam.

Hoje tenho poucos quadros desta fase construtiva.

Os meninos pintavam e bordavam enquanto eu pintava minhas telas. Eu preparava as tintas e eles pintavam os muros daquele fundo de quintal. 60 metros de muro, cercado por outros vizinhos.


Dentro daquele quintal a vida era divertida. Ali estavam plantadas muitas árvores frutíferas. Duas enormes mangueiras, uma parreira sobre um caramanchão, jabuticabeira, limoeiro, bananeira e um pé de fruta do conde. Havia também uma hortinha e um galinheiro. As crianças cuidavam das galinhas como se fossem bebês. Faziam o casamento do galo com a galinha e viam nascer os pintinhos. Uma festa verdadeira. Desenhavam nos muros várias cenas das vidas das galinhas. O contato com a natureza e a possibilidade de criar dava a elas um grande sentido de liberdade, como se estivessem numa pequena fazenda. Maurício e o Pedro, filho da Lourdes, eram da mesma idade. Brincavam juntos naquele quintal.

Um dia resolveram cavar um buraco para chegarem ao Japão. No meio da escavação tive que dar o grito:

" Nem mais um centímetro desse buraco. Chega de Japão."

Tudo era um barro só, as roupas, as pernas, as caras! E como era difícil tirar aquele barro.

Foi quando o Maurício resolveu escalar as mangueiras. Escolheu o seu galho preferido lá nas grimpas. Cada galho tinha um nome e o mais alto de todos era chamado de " Vista maravilhosa".

Dali se avistava o conjunto de prédios situados no centro da cidade.

A Eliana, cujo apelido era Tindô, em vez de escalar árvores, resolveu escalar o muro que dava para o quintal do vizinho. Resultado: caiu do outro lado no quintal de 3 velhas que não sabiam de onde tinha surgido aquela menina. Bateu com a boca no chão e o dente de leite da frente caiu.

Ela ficou então com aquela" janelinha" na boca até os 7 anos de idade.

Enquanto isto eu trabalhava incessantemente no meu ateliê.





 

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