Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 1 de abril de 2014
sexta-feira, 14 de março de 2014
MEMÓRIAS DE GUERRA E PAZ
Pediram-me
para publicar minhas memórias da primeira viagem internacional que fiz aos EUA
em 1961, a convite do governo americano. Escolhi esta página do meu diário,
porque coincide com o momento que estamos vivendo. A guerra e a paz sempre
foram motivos que influenciaram artistas tais como Goya, Orosco, Picasso e
Portinari. Também eu, na minha trajetória, denunciei a guerra nuclear no meu quadro
“Radioative ship”, atualmente no museu da Pampulha.
“Quarta
feira de cinzas, 1961:
Amanheci triste hoje. As saudades aumentaram cada dia.
San Francisco é uma cidade alegre. Alegre e bonita, semelhante ao Rio. A mesma
beleza natural, grande dote do Criador. Mas estou triste, apesar de tudo. Não
sei porque, aconteceram tantas coisas esta semana! Logo de entrada, ainda bem
não chegara ao aeroporto, os jornais anunciavam em grandes manchetes o foguete
russo a caminho de Vênus. Fiquei muito entusiasmada, mas não encontrei ninguém
para compartilhar do meu entusiasmo. Os americanos não estão muito felizes com
a notícia... Bem, guardei para mim mesma o entusiasmo e me enfiei no quarto do
hotel para ouvir notícias. Tenho um rádio que funciona bem e me distrai quando
estou triste, toca músicas. Outro dia, escutei “Marina, Marina, Marina”: que
saudades! Para escutar o rádio por 24 horas, tenho de colocar 25 cents no cofre
lateral. Aqui tudo é pago. Se quero comprar selos, vou à máquina de vender.
Ponho 5 cents e recebo 4; ponho 10 cents e recebo 8. No fim, a máquina vai me
engolindo o cobre todo. Com estas taxas, constroem escolas e foguetes, o povo
acha bem empregado, querem progredir. Mas, voltemos ao foguete russo. Anda a
caminho de Vênus, será que lá tem gente? Se tiver, vai ser uma sensação a
chegada do misterioso engenho terrestre. E para nós também será melhor,
ficaremos mais unidos... Isto de guerra me apavora. Hoje, abri por acaso a
gaveta da mesinha, havia um anúncio em letras enormes “Quando as sirenes da Defesa Civil tocarem, aqui está
o que fazer”.
1º
alerta – contínuo, ininterrupto som de sirene por 4 minutos, significa ataque
inimigo provável. Evacuar a cidade, sair imediatamente de onde estiver. Seguir
o tráfego. Ir de automóvel.
2º
ataque sem aviso – nenhum som de sirene. Um brilhante, luminoso foco, o mais
brilhante que você já viu. Você terá apenas poucos minutos antes que o choque
chegue. Deite-se debaixo da mais pesada peça de mobília, ou se não houver,
deite-se no chão, a face voltada para a parede, longe da janela e dos vidros.
Continua uma série de medidas preventivas, inclusive
depois de passado o ataque atômico. Se sair à rua, lavar logo o corpo, trocar
de roupas e se livrar de tudo que possa estar exposto à radioatividade. Escutar
o rádio para instruções, não ligar o telefone...
Este anúncio pôs-me pensativa e impressionada. Quanta
coisa pode acontecer e eu aqui, sozinha! Lembrei-me de que San Francisco sofre
terremotos, meu corpo se arrepiou. E, se aparecer um agora comigo, eu que desenhei
tantos terremotos e explosões! Por falar em explosão, outra coisa veio
perturbar meu sossego. A explosão do Boeing 707 na Bélgica foi algo de
tremendo. Estava em N. York quando as patinadoras se exibiram no ringue,
fazendo louco sucesso. Vi-as na televisão e agora, coitadas, estão mortas...
Sempre me senti tão segura no jato! Agora passarei a
ter medo deles também. A situação tem sido de medo e tensão esta semana. Nunca
me senti tão insegura, e agora logo que não tem nenhum brasileiro para trocar idéias.
Estava no balcão de entrada, lambendo um selo, quando uma senhora me abordou:
“A senhora é francesa?” “Não, sou brasileira e você?” “Russa de nascimento, mas
americana naturalizada, casei-me com um americano. Quase dei-lhe os parabéns
pelo foguete, mas talvez o dono do hotel me enforcasse, fiquei calada pensando.
Tem um sorriso triste. Mora no hotel. Deve se sentir mal por ser russa morando
na América...
*Fotos de arquivo e da internet
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
JORNADA DE ESTUDOS INDIANOS
Com a presença do embaixador da Índia e do cônsul da
Índia em Minas, foi realizada na faculdade de Ciências Econômicas -FACE – no Campus da UFMG em BH, a I Jornada
de Estudos Indianos, uma cooperação acadêmica Brasil – Índia no século XXI, em
19, 20 e 21 de fevereiro. Assistimos a abertura do evento e, enquanto víamos o
excelente projeto do prédio a ser construído, que abrigará a área de Relações
Internacionais, recordamos toda a trajetória que já foi feita silenciosamente,
para que um dia se realizasse esta aproximação. Recordamos nossas viagens à
Índia, sem apoio oficial, movidos por uma intuição e uma necessidade inadiável de aproximar
estes dois países. Era necessário que isto acontecesse e o fizemos com muito
amor. Maurício foi o primeiro a se aventurar nesta campanha. Com uma bolsa do
CNPq, realizou um trabalho sério, que exigiu um ano de permanência em
Bangalore, sul da Índia, pesquisando as semelhanças entre aquele país e o
nosso. Seus estudos se transformaram em livros, palestras.
Hoje, vejo o seu instrutor, prof. Vinod Vyasulu, do
International Institute for informtation
Technology de Bangalore, fazendo uma apresentação comparativa Brasil – Índia. Acompanhamos sua palestra com
muita alegria, de ver concretizado o que sempre desejamos. Bangalore é um lugar
dedicado às novas tecnologias, em especial a área de informática, e já está
fazendo intercâmbio com Belo Horizonte, levando e trazendo estudantes de lá
para cá como forma de aperfeiçoar conhecimentos.
Lembro-me das viagens que fiz à Índia tendo
Bangalore como ponto de referência. Meu trabalho se realizou de forma
artística, desenhando nas ruas, anotando a vida do povo, seus costumes, sua
arte. Ali encontrei riquíssimo material de cultura e me inspirei ilustrando
livros, fazendo palestras, buscando as semelhanças e os contrastes que mostram
a vida no planeta e como as sociedades tão distantes têm características
parecidas.
Dei a minha contribuição no que me foi possível
fazer.
Parabéns a este grupo da Universidade de Minas
Gerais! Que este intercâmbio se intensifique cada vez mais!
*Fotos de Maurício Andrés
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