Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
domingo, 13 de abril de 2014
terça-feira, 1 de abril de 2014
EUA 1961 - PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Fui incorporada
ao grupo do “International Center” - Cada um se levanta e diz em inglês, em poucas palavras o que veio fazer nos
EUA e o que faz em sua terra. Gente de todas as partes do mundo: Coréia, Filipinas, Japão, Indonésia, Iugoslávia, etc. Na maioria homens, uns 80
homens. Além deles quatro moças Filipinas e eu. Levantei-me sem jeito
para dizer o que pretendia. “I’m an artist. I want to see
museums and art schools in the United States.”
“We are glad to have an artist among us” respondeu o
conferencista. As profissões
são as mais variadas possíveis.
Confraternizam-se povos de raças e costumes diferentes. Alguns pertencem à
cortina de ferro, aos países dominados pelo comunismo. Outros à regiões distantes,
das quais muitas vezes nem ouvimos falar. Troquei poucas palavras com o
representante da Iugoslávia. Queria indagar mais sobre o seu país, mas não
houve tempo necessário para satisfazer minha curiosidade. Admirei-me de encontrar pessoas de
um país comunista em plena capital americana e, ainda mais, a convite do
governo!
A afluência de
estrangeiros esta semana foi tão grande que tiveram que separar as salas para
as conferências. Uma turma de médicos brasileiros participou do nosso programa.
Alguns deles viajaram comigo do Brasil.
Preferi ficar
junto às moças Filipinas que
são uns amores. Aquelas carinhas risonhas, de olhos apertadinhos (diria todas japonesas) são de uma simpatia
fora do comum. Residem no Hotel 2400, perto do International Center e pagam
três dólares cada uma para um
quarto coletivo. Tudo isto fiquei sabendo, mas preferi continuar no meu mesmo.
Pago quatro dólares e
meio, mas fico sozinha, sem companhia e mais à vontade. Espalho minhas coisas do jeito que quero, ligo a
televisão ou escrevo, sem que ninguém venha me perturbar. Às seis e meia vieram
me buscar no hotel. Mr. and Mrs. Raul D’Eça. À propósito, preciso urgente comprar um chapéu. A senhora Raul D’Eça entrou pelo saguão à fora toda encapotada e risonha. Usava um chapéu não me lembro
de que cor, mas, de qualquer forma, um chapéu. Perguntou-me se estava bem
agasalhada. “O frio lá fora
está de bater os queixos!”
Descemos juntas
até o carro aquecido. Dr. D’Eça quase não mudou nada: a mesma simpatia e serenidade dos tempos de
Belo Horizonte. Levaram-me a um hotel em Virgínia, longe da cidade, muito grã-fino. Lembra o
interior de um transatlântico luxuoso. Na piscina gelada, crianças e jovens trajando roupas
apropriadas deslizavam sobre os patins. Alguns mais ágeis chegavam a dançar e
ensaiar passos novos. Das janelas do restaurante envidraçado observa-se o espetáculo de inverno. Para mim aquilo era
realmente um espetáculo maravilhoso. Não tirava os olhos dos patinadores. Dr. Raul estava louco por novidades.
Perguntou-me por todos, Guignard, Mario Silésio, Estevam. Vejo que tem um carinho especial
por B. Horizonte onde morou sete anos.
*Fotos da
internet
VISITE TAMBÉM
MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
sexta-feira, 14 de março de 2014
MEMÓRIAS DE GUERRA E PAZ
Pediram-me
para publicar minhas memórias da primeira viagem internacional que fiz aos EUA
em 1961, a convite do governo americano. Escolhi esta página do meu diário,
porque coincide com o momento que estamos vivendo. A guerra e a paz sempre
foram motivos que influenciaram artistas tais como Goya, Orosco, Picasso e
Portinari. Também eu, na minha trajetória, denunciei a guerra nuclear no meu quadro
“Radioative ship”, atualmente no museu da Pampulha.
“Quarta
feira de cinzas, 1961:
Amanheci triste hoje. As saudades aumentaram cada dia.
San Francisco é uma cidade alegre. Alegre e bonita, semelhante ao Rio. A mesma
beleza natural, grande dote do Criador. Mas estou triste, apesar de tudo. Não
sei porque, aconteceram tantas coisas esta semana! Logo de entrada, ainda bem
não chegara ao aeroporto, os jornais anunciavam em grandes manchetes o foguete
russo a caminho de Vênus. Fiquei muito entusiasmada, mas não encontrei ninguém
para compartilhar do meu entusiasmo. Os americanos não estão muito felizes com
a notícia... Bem, guardei para mim mesma o entusiasmo e me enfiei no quarto do
hotel para ouvir notícias. Tenho um rádio que funciona bem e me distrai quando
estou triste, toca músicas. Outro dia, escutei “Marina, Marina, Marina”: que
saudades! Para escutar o rádio por 24 horas, tenho de colocar 25 cents no cofre
lateral. Aqui tudo é pago. Se quero comprar selos, vou à máquina de vender.
Ponho 5 cents e recebo 4; ponho 10 cents e recebo 8. No fim, a máquina vai me
engolindo o cobre todo. Com estas taxas, constroem escolas e foguetes, o povo
acha bem empregado, querem progredir. Mas, voltemos ao foguete russo. Anda a
caminho de Vênus, será que lá tem gente? Se tiver, vai ser uma sensação a
chegada do misterioso engenho terrestre. E para nós também será melhor,
ficaremos mais unidos... Isto de guerra me apavora. Hoje, abri por acaso a
gaveta da mesinha, havia um anúncio em letras enormes “Quando as sirenes da Defesa Civil tocarem, aqui está
o que fazer”.
1º
alerta – contínuo, ininterrupto som de sirene por 4 minutos, significa ataque
inimigo provável. Evacuar a cidade, sair imediatamente de onde estiver. Seguir
o tráfego. Ir de automóvel.
2º
ataque sem aviso – nenhum som de sirene. Um brilhante, luminoso foco, o mais
brilhante que você já viu. Você terá apenas poucos minutos antes que o choque
chegue. Deite-se debaixo da mais pesada peça de mobília, ou se não houver,
deite-se no chão, a face voltada para a parede, longe da janela e dos vidros.
Continua uma série de medidas preventivas, inclusive
depois de passado o ataque atômico. Se sair à rua, lavar logo o corpo, trocar
de roupas e se livrar de tudo que possa estar exposto à radioatividade. Escutar
o rádio para instruções, não ligar o telefone...
Este anúncio pôs-me pensativa e impressionada. Quanta
coisa pode acontecer e eu aqui, sozinha! Lembrei-me de que San Francisco sofre
terremotos, meu corpo se arrepiou. E, se aparecer um agora comigo, eu que desenhei
tantos terremotos e explosões! Por falar em explosão, outra coisa veio
perturbar meu sossego. A explosão do Boeing 707 na Bélgica foi algo de
tremendo. Estava em N. York quando as patinadoras se exibiram no ringue,
fazendo louco sucesso. Vi-as na televisão e agora, coitadas, estão mortas...
Sempre me senti tão segura no jato! Agora passarei a
ter medo deles também. A situação tem sido de medo e tensão esta semana. Nunca
me senti tão insegura, e agora logo que não tem nenhum brasileiro para trocar idéias.
Estava no balcão de entrada, lambendo um selo, quando uma senhora me abordou:
“A senhora é francesa?” “Não, sou brasileira e você?” “Russa de nascimento, mas
americana naturalizada, casei-me com um americano. Quase dei-lhe os parabéns
pelo foguete, mas talvez o dono do hotel me enforcasse, fiquei calada pensando.
Tem um sorriso triste. Mora no hotel. Deve se sentir mal por ser russa morando
na América...
*Fotos de arquivo e da internet
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
Assinar:
Postagens (Atom)












