quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

MEU ENCONTRO COM AS BORDADEIRAS MATIZES DUMONT


A folia de reis em Brasília, além de ser uma celebração, foi também uma confraternização. Naquela noite fizemos amigos novos e as bordadeiras do grupo Matizes Dumont nos foram apresentadas.
No dia seguinte já estávamos em casa de Sávia conversando sobre o trabalho de bordado extensivo à toda família. Conhecemos D. Antônia, a mãe e líder do bordado. Com filhos, netos e bisnetos, D. Antônia ainda borda e incentiva a participação da família num trabalho de arte coletiva que serve de exemplo para outras famílias. O bordado sobre telas de artistas famosos é uma recriação livre sobre um tema que serve de base. As bordadeiras percorreram os caminhos do Rio São Francisco, registrando os barcos, os animais, as festas e percorreram também a trajetória de Portinari em Guerra e Paz, traduzindo para o bordado a obra prima do grande artista brasileiro.  Cores, tons, semitons, os amarelos trazendo a alegria das crianças brincando de roda, os tons de azul escuro simbolizando as sombras da guerra e a tragédia da morte coletiva pairando sobre a terra. Tudo isso foi traduzido e interpretado em linhas coloridas e lãs multicores das bordadeiras Matizes Dumont. Relembro minha prima Maria Ângela Magalhães com sua turma de bordadeiras tecendo as minhas tapeçarias entituladas “Barqueiros do São Francisco”.
Agora, estou eu sentada num ateliê de arte que agrega uma família inteira, filhas, netas, todas tecendo e bordando cenas do cotidiano e também traduzindo a inspiração de grandes artistas como Portinari. As bordadeiras são bem sucedidas em seu trabalho de arte coletiva, realizado por muitas mãos. Um dos irmãos, o pintor Demóstenes, reside em Tiradentes. Ele realiza seus estudos e telas para se transformarem em bordados. Esse grupo de artistas, de uma originalidade extraordinária, já se firmou como um grupo conhecido no Brasil Central e também no Rio e São Paulo, o famoso eixo inquebrantável.
Aqui estou, no Brasil Central, descobrindo novos caminhos para minha arte.
Conheci Sávia, que é também escritora, escreve livros para crianças que já mereceram o prêmio Jaboti, um dos prêmios mais importantes do Brasil. Os livros são ilustrados com fotos dos quadros bordados e a história de Candinho o “Portinari” vai seguindo pelo Brasil através do mundo das crianças. Pediram-me para dar entrevista sobre a minha trajetória na arte e na vida e um dia terei também um livro bordado.
Graças a essa família privilegiada muita coisa nova está sendo feita em matéria de quadros e livros e até de capa de CD, como o bordado que foi  feito para ilustrar um CD de Maria Betânia.
Bem, aqui estamos em Belo Horizonte de novo, depois de ter escrito esse blog durante a viagem. Marília foi buscar as malas e eu aqui estou, no Aeroporto de Confins, escrevendo, sentada numa cadeira de rodas.
Chegamos. O tempo aqui está ótimo, há crianças brincando e correndo enquanto as mães tiram as malas. Tudo vai começar de novo nessa movimentada cidade das montanhas. A paisagem é outra, deixamos para trás o cerrado e os amigos que lá ficaram já nos dão saudades. Talvez um dia possamos caminhar juntos, nas estradas mágicas dos bordados.

*Fotos de Arnold Baungartner, Rui Faquini e Maurício Andrés

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG "MINHA VIDA DE ARTISTA", CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA






domingo, 30 de dezembro de 2012


MUSEU REVELADO


Na sexta feira, dia 21 de dezembro, resolvi visitar o MAP, Museu de Arte da Pampulha, antes que se acabasse com o fim do mundo. Uma caminhada retroativa através da Arte Contemporânea, passando pela geração 80, até chegar ao princípio do modernismo, dá ao visitante uma visão de conjunto do que foi feito no Brasil e em Minas, uma seleção de trabalhos que informam o esforço criativo de nossos artistas. Cada um nos conta uma história, que nos permite voltar ao passado, rever as cenas e sentir que o nosso acervo é de muito boa qualidade. Há muito tempo não via um Guignard de perto e a presença do meu mestre, com seus balõezinhos e paisagens mineiras é o grande cartão de visitas que o museu está oferecendo.  A poesia de Guignard é inconfundível e sua sensibilidade atravessa gerações e vai nos conduzindo ao seu mundo de sonhos. O modernismo em Minas, comandado por Guignard e estruturado por Niemeyer, Portinari e toda equipe inovadora da Pampulha, está de volta à Pampulha. O modernismo nasceu e se desenvolveu nesta região de BH, à beira da lagoa. Lembro-me de quando Portinari veio com sua equipe pintar o grande painel da Igrejinha. Aprendemos muito com sua técnica de pintura, oferecida generosamente aos visitantes, estudantes de arte. Veio gente do Rio e São Paulo e os alunos se agrupavam em torno dos pintores cariocas, Portinari em cima de uma escada e seu irmão Leo trabalhando o tempo todo como auxiliar. Ele nos explicava tudo, mostrando os desenhos. Para se fazer um painel é necessário muito trabalho, muitos croquis, estudos de formas e cores, uma lição de vida. Nada se consegue sem muito esforço.
Hoje, sentada ao lado do trabalho de Portinari, posso ver de perto as pinceladas daquele grande brasileiro que morreu ainda jovem  intoxicado pelas tintas.  Iberê Camargo, Volpi e Milton da Costa, vão mostrando outras faces do modernismo, do concretismo ao expressionismo, marcando as mudanças sofridas na arte. No fundo da sala, uma grande tela em preto de Ivan Serpa nos surpreende por seu expressionismo violento. Eu conheci Ivan Serpa na década de 50, mostrado como um papa do concretismo brasileiro. Poucos anos depois sua força criativa demonstrou que ele era um artista cuja visão do mundo permitia trabalhar com o oposto. Largar a rigidez do concreto foi o caminho de todos nós. Alguns foram para o neo concreto, outros se libertaram no expressionismo. A arte nos permite essa liberdade de linguagem tranquilamente, sem conflitos. Naquele atormentado século XX, os pioneiros da arte abriram caminho para essa diversidade.
No andar superior, os transgressores da arte ali estão representados ao lado de Ivan Serpa, por nossos mineiros, Terezinha Soares e Jarbas Juarez. A transgressão na arte começou na década de 60 em Minas. Nesta exposição estou também presente com um desenho de barcos sobre papel veludo, da série mostrada nos Estados Unidos e em Sala Espacial na Bienal de 1961.
Mário Silésio e Amílcar de Castro marcaram presença com o concretismo e neo concretismo em Minas, mostrando como conseguiram assimilar as idéias vindas de fora com suas próprias idéias. O concretismo em Minas até hoje é lembrado como uma das tendências mais importantes de nossa trajetória.
Descemos a rampa em direção à Geração 80 e a Arte Contemporânea, representada por artistas inovadores, onde o espaço permite uma demonstração de que a arte deixou realmente o muro e se expandiu pelo espaço, como os arquitetos. Hoje a arte ocupa corajosamente o espaço, elabora formas que se justapõem construtiva e livremente, como os cubos de Damian Ortega.
A pintura de chocolate de Vic Muniz marca uma nova vertente de criação, com a rejeição dos recursos tradicionais da pintura. Admiramos uma instalação de José Bento, realizada em madeira, o silêncio meditativo da cerâmica de Sonia Laboriau, e a beleza serena do desenho de Isaura Pena.
Uma turma de visitantes vindos da Copasa, BH, invade o recanto . Querem ver os quadros, e uma jovem vai explicando tudo.
Sentei em frente a uma instalação de Roberto Vieira, ao lado de um trabalho em ferro de Leon Ferrari.
Procuro um lugar mais fresco para descansar.
A arte, realmente nos proporciona reflexões sobre as mudanças e transgressões deste mundo contemporâneo, cheio de surpresas.
À noite, um vídeo de Eder Santos, de grande intensidade poética é colocado na fachada do MAP, permitindo a visão panorâmica dos céus de Minas.

*Fotos da internet

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.





quarta-feira, 28 de novembro de 2012


ALEXANDRE ANDRÉS E MACAXEIRA FIELDS


 Foi lançado no Teatro do Colégio Izabella Hendrix, o segundo CD, Macaxeira Fields, de Alexandre Andrés. O jovem compositor reuniu um grupo de músicos, proporcionando o som de várias vozes em coro e em solo. Os pais de Alexandre, Artur Andrés e Regina Amaral também participaram do evento, enriquecendo o concerto.
Assisti à criação de uma das músicas na fazenda da Barrinha, em Entre Rios de Minas. Alexandre compunha, Artur corrigia, cada um num quarto diferente, diante do computador. O próprio ato criador assim realizado nesta dupla pai e filho, nos transmitia a emoção de uma parceria de mestre e discípulo. Alexandre cria suas músicas no seu studio na fazenda e os sons da natureza também participam.

O grupo musical se estende para artistas plásticos também, aproximando os jovens dos idosos.
“Vó, vou fazer um clip com um grupo de amigos e preciso de você na fazenda, com cavalete, tela e tintas.”
Viajei para Entre Rios a fim de participar dessa nova experiência, coisa diferente na minha carreira artística. Ali estava, também em frente a um cavalete, a jovem pintora Eleonora Weissman. O clip foi realizado com sucesso e está no Youtube com o título de “Ala Pétalo”. Duas crianças lindas ali interpretaram com espontaneidade o seu próprio comportamento de crianças, correndo no campo e curiosamente descobrindo o novo.

Macaxeira Fields é um CD precioso, cheio de nuances, que merece ser visto, não só em Belo Horizonte, como também no Brasil e no mundo.
Parabéns ao jovem Alexandre, ao letrista e poeta Bernardo Maranhão e a todos que participaram deste CD.

Transcrevo aqui trechos de um texto de Jocê Rodrigues, jornalista e escritor:
“Dotado de habilidades alquímicas o compositor, cantor e flautista mineiro Alexandre Andrés, em Macaxeira Fields (seu segundo álbum), transforma sons em sensações visuais e dilui-os em fórmulas que possibilitam a invenção de novas cores através da expansão de tons e matizes de uma poética que é sim brasileiríssima, mas que não represa ou esgota as possibilidades sígnicas das canções com qualquer tipo de postura nacionalista ou tradicionalista.
Macaxeira Fields mescla música de câmara e também música de câmera, pois fotografa partículas de realidade e instaura ausências no corpo do real e do nosso imaginário pela presença efêmera do som. É a canção que pulsa na percussão e também nos silêncios e pianíssimos que povoam as doze faixas de um trabalho que é (puro e simplesmente) todo canção. Não só canção da voz, mas canção do corpo e do mundo.
André Mehmari assume os pianos e a direção musical do CD e tudo então torna-se tinta em paleta de artista extremamente talentoso e cuidadoso com as texturas. Trabalho de um Klee tropical, que trabalha e reflete sobre temas ontológico-territoriais de maneira econômica na cor e rica na forma. As letras do poeta Bernardo Maranhão formam um fenômeno líquido a molhar ouvidos e a chover em superfícies e instâncias da experiência estética de se habitar a música. Parafraseando Yukio Mishima, todas essas águas correm para um mar de fertilidade.
Alexandre Andrés desponta, ao lado de alguns de seus conterrâneos, como um artista disposto a levar adiante um projeto de novíssima canção, o que implica em explorar sua potência para além da tradição (das correntes que impedem um verdadeiro ato criativo e conduzem à pura repetição cultural).”

*Fotos de Sylvio Coutinho

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.